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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

... meu filho odiado... [parte 2]


O movimento dele é perfeito e insinuante, ele vive como se estivesse representando. Tudo é intenso, cheio de rituais, coreografado. De sua pequena jaula, ele hesita se deseja libertar-se para o mundo feio e moribundo que o espera. Suas máscaras de tinta distorcem seu olhar sobre si mesmo. Quem ele realmente é, algo que ele sente, mas mantém oculto de sua mente, como uma seda muito fina mantida numa caixa guardada numa prateleira sombria, só pelo medo de no uso sujar, destruir.
No espelho, a pele oriental de um tom aporcelanado e descorado é ainda mais alvejada sob camadas grossas de tinta branca... Os cabelos longos e lisos, negros como asas de corvo, ganham formas ousadas e acessórios coloridos, piscantes, faiscantes, como o penteado de uma geisha. Apáticos, os olhos praticamente amarelos, como duas luas semi-mortas, se miram, foscas, nubladas. Cada roupa é customizada ao seu papel. Uma Oiran. Dentro se si, sem o saber, uma dissimulada fábrica verde funciona cada vez mais potente. Mais do que ressucitar a vida que se perde, talvez pudesse germinar seu verdadeiro eu.


[Renascendo das cinzas...]


Nome Phoenix
Sobrenome materno Ashrann
Sobrenome paterno Takeda
Breve histórico familiar O clã Takeda de samurais tornou-se uma família rica e poderosa no Japão. Os Ashrann na Índia altamente informatizada são um dos ícones em termos de fortuna, famosa por gerir e patrocinar avanços na área de A.I., de bio-chips e softwares inovadores. O casamento por interesse foi estudado e aprovado por ambos lados e assim houve a apresentação entre Takeda Ichizen, de sangue impuro (sua mãe era norte-americana) e Ajala Ashrann, a noiva. Não possui irmãos vivos. Seus familiares não conhecem seu paradeiro atual. O nome na certidão é Takeda Honoojiro.
Idade 18 anos incompletos.
Aniversário19 de novembro (Scorpio).
Ocupação Dançarino, acompanhante e garoto de programa da casa Supernova, em Noir.
Mora num dos pequenos quartos da ala "vermelha" da Supernova.
Altura 1,86 m.
Classe Metahumano.
Habilidade
.... auto-desintoxicação, auto-cura, seu corpo recupera-se num ritmo superior ao humano e progressivamente tem repelido substâncias estranhas à ele, graças à sua estranha fisiologia e aos organelas celulares incomuns que desenvolveu;
.... aumento das funções corporais (força, agilidade, velocidade, sentidos) lembrando as de um animal selvagem;
.... seus líquidos vitais são veículo de uma absurda carga vital, capaz de servir como elixir de regeneração, trazer sementes dormentes à vida, adubar substratos estéreis e energizar / nutrir excepcionalmente seres vivos.


[Noir ~character files]

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

... meu filho odiado...


"Traditional Japan embraced sexual delights (...) For sexual enjoyment and romantic attachment, men did not go to their wives, but to courtesans. Walled-in pleasure quarters were built in the 16th century,[7] (...) and within which "yūjo" ("play women") would be classified and licensed. The highest yūjo class was the Geisha's predecessor,
called "Oiran", a combination of actress and prostitute, originally playing on stages set in the dry Kamo riverbed in Kyoto. They performed erotic dances and skits, and this new art was dubbedkabuku, meaning "to be wild and outrageous". The dances were called "kabuki," and this was the beginning of kabuki theater.[8]"



O grande e luxuoso apartamento estendia-se, centenas de metros, câmeras, wi-fi, comunicadores, enormes telões e fontes de projeção holográfica. Branco. Branco como as vestes de luto. Branco, como as roupas que seu pai usaria pelo resto da vida. O primogênito havia morrido. Havia sido morto. Executado, os policiais disseram. Seu corpo dilacerado foi cremado, sem que pudessem velá-lo em caixão aberto. Os Takeda vieram, de vários pontos do Japão, e até do exterior, e lamentaram aquela perda. O herdeiro mais promissor de seu clã, aquele que incorporara tão bem os valores e tradições da família, fora eliminado.

Anos se passaram antes que o casal se recuperasse do baque. A idade já avançada foi vencida por remédios e terapias - a fertilidade foi forçada a se manifestar nas sementes já desgastadas, já adormecidas, que levariam para sempre ao esquecimento aquele sangue. Um menino foi implantado no útero já morno. Nasceu uma criança que passaria a ser sempre cobrada pelo modelo perfeito do irmão mais velho que jamais conheceria. Um cadáver contra quem era impossível competir, ainda mais vencer.

O menino foi lapidado desde tão tenro que mal se pode dizer que teve infância. Tudo que fazia destinava-se a aprender a ser um Takeda, a elevar o nome da família ao patamar que uma vez este renomado clã de samurais havia ocupado. Seu pai o fazia excursionar pelas casas-de-chá, pelo dojo, pelos infinitos andares da corporação em Tokyo. Lia os grandes livros para a criança que ainda não sabia ler. Treinava-o com a espada de bambu desde que ergue-se nas pequenas pernas. Ensinava-o a tirar tudo das máquinas, da WIRED, das pessoas.

Mas o garoto não era tão agressivo quanto o irmão. Preferia o ikebana ao hapkido. Preferia caligrafia a administração. Por que haviam dado um segundo filho que não chegava aos pés do primeiro?... Essa reflexão ficou ainda pior quando foi demitido da empresa que sua própria família fundara. Tantos anos, tantos amigos, e ninguém para oferecer uma nova oportunidade. Focar-se sobre suas outras paixões e sobre sua grande amargura: o filho que não lhe orgulhava, era só o que restava nas longas horas que seguiam-se, febris e decadentes.

A mãe foi-se. Devagar. Penosamente. O câncer roeu suas entranhas pouco a pouco. Meses e meses de luta. Bilhões jogados fora na vã tentativa de salvá-la. No dia de sua morte, seu pequeno filho ao vê-la no leito do hospital, vomitou. A linda mulher tornara-se uma pobre massa de carne repulsiva. E então... nada...

Economias hemorragicamente gastas, propriedades vendidas em liquidação, e nada mais também restando aos dois Takeda sobreviventes. O velho pensa no haikiri. O menino chora abraçado à sua perna trêmula. O menino. Aquele que viverá após ele. Que levará seu nome adiante. Uma fina esperança. E uma viagem a Noir, a meca das oportunidades, a capital do Mundo.

Que belo engano...
[Noir - characters' profiles]

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

... subtextos a um simulacro...



Holy roller
It's your reality

I've seen the people that they've branded
They always come out open handed
(...)
Open your eyes
Push yourself inside
Contemplate all of your senses
Tell them what you want to lose
They'll just spit in your face
Push you back in your place
Concentrate all of your answers
Tell them what you think you know

(...)

Holy roller, it's your reality
Are you tied down and in locks?
Held up and face fact
Holy roller, it's your reality
Can you taste this, the spaces?
Erase the sexes
Have you seen what's inside your mind?
Have you been fucking your own kind?
Have you been writing on the wall?
Have you seen anything at all?

(...)

Under the sun
Under your self
Under the sightings of your side
Under your cross
Under the gun
Under the meaning of your life


[Occam's Razor, by 30 seconds to Mars]


Ela o tinha trazido... Agora, nesse instante, ele se perguntava, novamente, por que?...

O prédio tinha segurança reforçada... Seus próprios semelhantes... Mais o pessoal da ShinRa, de outras equipes... Detalhes de luxo... Elevadores com senhas para descer aos andares secretos... O charme acabava ali... Instalações com cheiro de formol, nitrogênio líquido e vidros estéreis... Odiava aquele lugar... Por que?...

Ela ia à frente, e ele buscou conter as ondas de náuseas ocupando-se de olhar seu traseiro rebolar provocativamente sob o vestido fino de seda. Era uma distração e tanto... O tendão do pulso direito saltou, retesado. Chamava combate. Onde?... Os olhos amarelados - ainda eram dois - deslizaram longamente, quase imperceptivelmente, vasculhando o espaço sem falhas... sem marcas... sem cores... só luzes fluorescentes, dissecativas, cegando... Piscou, notou que o suor descia pela inserção de sua orelha e lhe provocava um calafrio ao passar do pescoço à clavícula ossuda. Ela voltou-se por um segundo e encarou-o: - Ash?

Por que esse nome inventado?... Franziu a testa. Não gostava dessa aproximação. Não queria ser mais tentado do que já era. Tinha um código, um número, como todos os demais. Tinha uma reputação sob esse número. Orgulhava-se do seu desempenho como CANNIBAL, então por que diabos esse codinome estúpido inventado por um capricho dessa pequena e linda fêmea, lasciva, glamurosa, indecifrável, frágil e intocável?... Os lábios se espremeram e por fim, sem conter-se mais: - Às suas ordens, Srta. Lunia.
- Que bobagem... Já te disse que não gosto desses protocolos... Não entre nós. - virou-se e inseriu o cartão na fechadura eletrônica, digitou a senha, apoiou o dedo no painel luminoso. Houve um momento de silêncio e o bufar pesado dos pistões recolhendo as travas e depois movendo as pesadas portas blindadas. - Preciso falar com meu pai, e ele está se escondendo aqui, há dias... Então... Me desculpe por te trazer aqui.
- É meu trabalho, Srta. Lunia.
- Estúpido.

As pupilas fendaram-se e se puxaram a outro alvo, esquadrinhando o interior sussurrante de máquinas, canos e vozes contidas, fora do alcance de suas vistas, depois outra vez o corredor. Sua nuca arrepiou-se quando seus passos o levaram a segui-la para dentro. A porta expeliu vapores e deglutiu-os. Teve vontade de explodi-la e correr para fora, com toda agilidade que aguentasse. Focou-se na garota, outra vez. "Por que o medo?"

Ela se esgueirou sem pudor algum, deixou monitores para trás... provetas para trás... jaulas para trás... cientistas em branco com suas planilhas nervosas para trás... Computadores faiscantes com o rodar frenético de seus processadores, de seus discos rígidos, os terabytes, e aquele homem, debruçado sobre algum problema empírico, ou o que fôsse, amarelado, recurvo e autista... A mão dela, como uma borboleta, pairando de encontro àquele ombro: - Pai...?

O homem empertigou-se, quase num pulo, arrumou longe do rosto os cabelos desgrenhados, e seus olhos castanhos esbugalhados naquela face desvairada, alienada, paranóica, a escrutinavam. Até que pareceu reconhecê-la e houve um brilho de culpa, uma dor meteórica, um calar de tudo e a expressão, ainda que menos preocupante, da face envelhecida tornou-se sóbria e controlada... Uma chapa de aço: - Lunia, o que veio fazer aqui? - e num segundo instante de reconhecimento, uma fugaz contração de susto, o odor de medo, então de excitação e o sangue todo, a turbilhonar audivelmente pelo peito de panos brancos: - Trouxe seu segurança... Como está, P.A. número 7?
- Operante e atento, senhor.
- Que irritante! - repreendeu-o, e pisou-lhe na bota com o salto.
- ...
- Lunia, não quero esse comportamento. Já falamos sobre isso...
- Que bom que o senhor lembra que um dia conversamos... Não lê mais suas mensagens?!! Vim aqui para falar contigo, já que parece que o mundo, pelo senhor, poderia acabar, desde que essa merda de laboratório continuasse de pé!

Uma pontada, em algum canto baixo do cérebro. Um gosto acre na boca. Remexeu-se. Desconfortável. Olhou ao redor, dando privacidade à reunião de família que prosseguia às suas costas. O cheiro... O arrepio voltou, mais forte, tomou todo seu corpo. Deu-se conta que os dedos haviam gelado.
- Não posso falar disso com ele por aqui. - a frase do velho lhe pinçou a atenção, mas não moveu-se.
- Quero que desative tudo, dessa vez.
- Oras... não diga bobagens... você é uma mocinha... o que pensa que sabe sobre isso?
- Mais do que suporto!
- Quer que eu lhe ajude com isso?

Algo rompera-se, girou lentamente, leu nos olhos dela a decepção, o pavor, o asco: - Nunca me proponha isso. Nunca mais! Jamais, ouviu?!
- Não grite.
- No que você se tornou, pai??? Que diabos de pergunta foi aquela para ele? É o Ash!

O apelido, atirado contra o doutor, parecia ter bem mais força que uma bofetada. O rosto do homem empalideceu. Balbuciou alguma coisa, sem articulação. Encarou o jovem sem conseguir sustentar o olhar e puxou-a às pressas, aos solavancos, meio que cambaleando. Óbvio que Sete foi com eles: - Você não! - o homem gritou-lhe - Por ordem e protocolo de segurança! - espumava, sobrepondo palavras, gestos, enquanto ela se debatia e espiava ao seu guarda-costas um olhar cortante de rebeldia - conforme instruções para situação nível 0, lhe ordeno que se mantenha distante e aguarde!

Paralisou-se. A hierarquia havia sido confirmada. Lunia, mesmo que lhe pedisse, não tinha mando nessa situação. Amargo. Ficou vendo-a ser levada. Farfalhares estranhos em sua mente. Um sorriso luminoso de menina. Sapatos negros. Uma mão pequena entre seus dedos longos... Algo muito longínquo, baixo demais para ouvir., dentro de si mesmo. Piscou, verificou que sua mão estava vazia. Acordou para o entorno. Teve esgares de assalto, franzindo o nariz e bufando. "Esse inferno de laboratório!..." Um adejar de verde, repicou em sua pupila esquerda. Devagar, posicionou-se e capturou uma luz que vinha por detrás de painéis, por entre pilares por onde escalavam tubos coloridos. Verde... Os punhos cerraram-se violentamente até enbranquecer as juntas. "Aguarde."

Os minutos excruciantes pareciam arrancar-lhe pequenos pedaços de sanidade. A luz verde. O cheiro. Aqueles zunidos, tão familiares... Voltou-se ao som dos passos: era o doutor, bastante irritado, desalinhado. Sentou-se na banqueta, determinado, e no outro inspirar já tinha se prostrado, como se tivesse perdido todos os ossos do corpo: - Sete, a Srta. Lunia tem lhe sido inconveniente?
- Senhor, a Srta. Lunia faz parte de minhas incumbências e as cumpro sem julgamento.
- Vou formular de outro jeito: ela tem lhe provocado, tem abusado de você, tentado você a infringir sua postura profissional ou lhe falado coisas pessoais?
- Senhor, não tenho nada a reportar nesse sentido. - mentia feio, mas com convicção e isso pareceu aliviar por um segundo seu interrogador, mas logo reasseverou-se:
- Gosta de estar com ela?
- Senhor, é uma missão a qual me sinto honrado. - o que exatamente o velho esperava que ele dissesse?
- Perguntei se gosta.
- ...? Senhor, acompanho sua filha dentro dos protocolos exigidos de mim. - queria ouvir uma confissão, queria tentar incriminá-lo de algo, ou era só uma busca de elogio à filha?
- Gosta dela?
- Senhor, perdoe-me, minhas ordens são para manter distanciamento emocional de todos, inclusive de quem escolto.
- Ainda assim, gosta dela?!! - e os olhos do homem estavam agora congestionados e furiosos.
- Senhor... sinto decepcioná-lo... meu dever é protegê-la... não tenho intimidade com sua filha.

O grande gênio da ciência encolheu-se, escondendo a cabeça entre os joelhos. O assassino, diante dele, tentava compreender se algo de seu comportamento ou respostas poderia ser motivo de reclamação, se, desta vez, sua missão se transformaria em demérito. Ficou ali, mudo, aguardando. - Miserável! - foi o brado do pai antes de agarrá-lo com força de um pobre louco e jogá-lo contra o console para bater-lhe contra aquelas teclas e alavancas em sacudidas primais: - Por que isso?!! Por que?!! O que eu poderia te perguntar?!! O que mais poderia querer de você?!! Pedaço de carne desgraçada!!! Animal!!! Maldito seja, volta e volta e olhe só você!!! Olhe só... - claro que ele poderia ter se desvencilhado, ou ter evitado a queda, ou ter aparado os golpes, mas os protocolos todos o senteciavam a submeter-se ao humano, mais fraco - Olhe só... - repetiu-se, parando, ao vislumbrar o jovem apaticamente deitado sobre aquele aparato. O uniforme negro talhado como um terno caro, perfeito. A tatuagem de marcação em ambas têmporas, levemente visível entre os fios longos, soltos.
Puxou com ambas as mãos o rosto emaciado e adoentado, talvez quisesse arrancar de si aquela máscara, ou abrir-se em carne viva. Parecia agora culpar-se arrasadoramente pelo seu comportamento...

... "Típico..." quem sabe? Homens que se achavam tão intelectuais e avançados odiavam se deixar levar pela besta interior, coisa de gente involuída. De escória, como ele era, para aqueles humanos... Continuou esperando a reação do cientista, a defesa aberta, os olhos baixos de cão adestrado. Mas nenhum outro movimento de agressão veio. Cuspiram-se palavras, num tom mortiço e rude: - Caia fora daqui, está oficialmente dispensado. Volte imediatamente ao seu QG, já reportei o cancelamento de sua missão. Nos deixe em paz...

Ergueu-se: - Senhor, sim, senhor. - e foi-se, sem ironia ou tristeza, sem desrespeito ou contestação.

Os olhos do homem marejaram e sua alma quebrou-se sem solução... Dizem que, anos depois, quando ele morreu subitamente, no meio das turbulências da aparição dos Weapons, ele era nada mais que uma casca vazia...

Já havia morrido muito antes.



[The Slave with a Key - parte 8]

sábado, 18 de julho de 2009

... can you fix me?...

From the lying mirror to the movement of stars
Everybody's looking for who they are
Those who know don't have the words to tell
And the ones with the words don't know too well

Could be the famine
Could be the feast
Could be the pusher
Could be the priest
Always ourselves we love the least
That's the burden of the angel/beast

Birds of paradise -- birds of prey
Here tomorrow, gone today
Cross my forehead, cross my palm
Don't cross me or I'll do you harm

(...)

We go crying, we come laughing
Never understand the time we're passing
Kill for money, die for love
Whatever was God thinking of?



[Burden of the Angel Beast, by Bruce Cockburn]

Cheiro de rosas, couro novo e maquiagem. O vulto curvelíneo dela o fisgava, dissipando-se e reafirmando-se num ritmo delirante de acordo com o esvoaçar das sedas ao vento. Passou a língua contra os caninos. Tinha um sorriso ruim, de lobo. Ocultou-o num semblante vazio e engoliu. Das duas passadas, só se ouvia a dela estralando a areia sob o salto.

Local: uma ramificação dos laboratórios pertencentes a ShinraCorp. Um amontoado de pavilhões, tubulações e gente armada. Mas ela passeava ali como se estivesse num shopping center... E ele... seguia.

Seu cão. A tatuagem com código de barras, letras e números contrastava de forma surreal sobre a pele dele, branca, de um tom caiado como a porcelana em que ela bebia seu chá importado com creme e limão. Os dois vultos se moviam na mesma sincronia - peixes do mesmo cardume.

Subitamente a jovem morena travou suas pernas longas. O olhar dele saltou por todos os lados e os tímpanos se afinaram, aumentando a sensibilidade de sua audição superumana. Sob seu terno com aparência de bem cortado - mais um disfarce daquele ente negro e disforme que lhe era irmão - seus dedos roçaram de leve no coldre. O coração dela parecia em sofrimento, lia isso na forma como o sangue borbulhava nas artérias de sua missão. Mas não achava nada nos arredores que justificasse - então, o que ela sabia que ele não?

Ajoelhou-se, suave, um choro preso, o rosto voltado para o chão e seu vestido abriu-se como uma flor nascente. Os braços dele pinicaram, tensionaram-se. Parecia que exigiam que a abraçasse. Era uma idéia estúpida e completamente irreal, fora de sua patente e de seu decoro como militar: - Srta Lunia, posso chamar seu carro?
- Tem regenerador com você? - pediu-lhe numa voz trêmula e outra vez ele teve uma injeção de adrenalina.
- Está ferida?

Nas mãos dela, um punhado de penas. Lágrimas formando contas num colar cristalino contornando as feições.
- Por favor?...

O frasco rebrilhou, artificial e extravagante a luz do sol coruscante. A fórmula enriquecida lançou uma luz violeta contra as duas mãos que se tocaram num instante fugaz. O pequeno olho mal mantinha-se aberto, pálpebras pesavam. Uma figura retorcida, cujo vértice da asa, pobremente intacto, dobrava-se apontando ao azul. Era como se a pequena ave erguesse dedos culpando o Céu.

Achara, por uma absurda probablilidade, um anjo?...




[The Slave with a Key - parte 7]

domingo, 5 de julho de 2009

... é depois que perdemos que...


Fôra uma semana tensa de rastreamento e infiltração cuidadosa até chegar ao líder rebelde e o centro de seu núcleo terrorista. Suas armas eram básicas, mas haviam se precavido fusionando a elas o poder das materias. Gostara do desafio, terminando a chacina com satisfação. Coletara paralelamente um bom número de objetos resgatando-os para as mãos da poderosa ShinRa Corp.

Neste instante, porém, sentia-se insuportavelmente entediado. Os olhos se prendiam ao teto branco, onde cores e luzes brincavam, refletidas do monitor esquizofrênico, que lhe dava as últimas notícias, entre elas o seu sucesso. Entre suas coxas, a nova criada pessoal parecia acreditar que o arrasava de prazer, com sua felação molhada e barulhenta.

Jamais pensara antes que voltar para sua gaiola de concreto e aço poderia vir a ser ainda pior... A cada vez que era chamado, tinha mais vontade de que sua missão o tragasse por um período infinito de tempo. O mais longo possível.

A música tocando era a mesma. O ambiente, igual. A comida, esta era diferente - mas tudo bem, ele se acostumara. Havia aquela bela garota, que não parecia em nada com sua primeira. Era obediente, como a outra jamais aprendera a ser. E calada, a não ser no sexo, como agora, quando disparava obscenidades. Sexo, sim, havia muito disso...

Impaciente, jogou-a de lado e levantou-se. Focou-a por um átimo, e lá estava aquela feição submissa e profissional. Nenhuma indignação. Sem questioná-lo. Ou odiá-lo.

Ao passar pelas prateleiras, suspendeu o passo, sentindo uma fisgada incomum no peito. Virou-se, admirando com curiosidade mórbida o pequeno objeto que o ferira.

Uma frágil estátua de gueixa retribuia seu olhar com insolente doçura.

E ele quase sentiu-se em casa...


[The Slave with a Key - parte 6]

... minha fera [amada]...



It's a long walk back to reality,
She puts another brick in the wall of shame she made so long ago
Trying to figure out where things went wrong
Searching through all the lies she told
Somehow she missed out on all the things that she needed most
Days spent wondering why this
Life is so cold and nothing ever changes

Screaming for attention,
Watch the sun steal yesterday
Hiding all emotion far away

Trying to find his self confidence,
Another broken heart behind the painless smile that he shows
Reminded that yesterday is so far gone
And tomorrow is still a miracle
Somehow he missed out on all the things he needed
most days spent wondering why this life is so cruel and
Nothing ever changes


[Waiting for Yesterday, by 12 Stones]


Sua música favorita ventava pelo alojamento sem janelas, como um baú. Alta e espirituosa - como deviam ser seus movimentos na batalha. O cheiro pungente de especiarias, carne e frutas recém-cortadas lhe abrira o apetite. Sentado em frente à mesa baixa, fartava-se, animado com a refeição quente - tanto como qualquer simples animal saciando uma necessidade básica. Comia feito um miserável, sem modos, os olhos quase se fechando a cada bocada.

Ela sorria em segredo e enchia uma vez mais seu copo com saquê amornado. Tinha orgulho por jamais tê-lo visto bêbado. Fitou-o de cima a baixo: era um guerreiro, rude, forte e determinado. Talvez ele jamais fôsse entender o que tentava lhe mostrar. Mas era perigoso dizer-lhe explicitamente. Há pouco não havia lhe testado? Algo o teria impedido de cortá-la em dois se ela tivesse ousado lhe dizer "sim"?

Ao mesmo tempo, um lado dela queria crer em outras coisas... Seria só uma esperança? Fruto de alguma fantasia tola, restante de sua tenra infância, das belas histórias que escutara?... Essa dúvida que a cutucava teria mesmo fundamento?...

As pregas da roupa dele rearrumaram-se em novos padrões quando subitamente ergueu-se. Um farfalhar como de asas. Congelada pela agilidade dos movimentos dele, foi seqüestrada sem opor-se. Enrolada em suas mangas longas e lustrosas, embalada com a suavidade de um anjo. Acolheu-a em seu colo, descendo ao tatame como se fôsse nuvem e não homem. Assim surpreendida e maravilhada, deixou-se solta, semi-reclinada sobre seu braço direito, uma boneca perfeita e palpitante. E seu dono encarou-a.

Tinha calafrios sempre que os olhos dele a penetravam tanto. Suas feições eram ferozes demais, em especial os olhos, tão parecidos com os de uma fera: aquelas órbitas escuras, as íris brilhantes demais, luas fluorescentes, e as pupilas, fendidas...

... Akuma!... era a palavra que vinha a sua mente, num tremor, todas as vezes.

Os dedos dele, como garras de falcão, longos e fortes, as unhas como esporas longas, foices, percorreram o rosto quase plano dela. As bordas de cada olho, amendoado e pequeno. Depois vagaram lentamente entre os fios negros dos cabelos lisos dela, dedilhando alguma canção proibida. Parecia hipnotizado. Não era a primeira vez que fazia isso...

Sim... como entender essa contradição? O uniforme negro e assustador - ele não o transformara neste quimono? Por que?... E com que alma tinha ele rebordado a veste com tanta maestria, com uma delicadeza de formas e cores que enuviava sua mente sugestionável? As flores no tecido sedoso... a neve que se derrete... os passarinhos de olhos vivos e penas coloridas... O que poderia mover um monstro como aquele, criado para assassinar sob ordens, a se vestir assim?... A tocá-la com tanta reverência?... A colecionar aqueles vinis somente por seu som, em melodias tão dramáticas, acordes que gritavam com emoção?...

Rolou os olhos marejados para reencontrar os dele. Ele estreitou as sobrancelhas de pêlos arrepiados. Enigmas. Esconderia ele pensamentos que não missões e prazeres bestiais? Seria capaz de sentir e apreciar?
- Me sirva. - ordenou-a.



[The Slave with a Key - parte 5]

sábado, 16 de maio de 2009

... armaduras que jamais caem, falhas nunca defendidas...



There is nowhere left to hide
There is nothing to be done
No people to be saved
No pets we've never named
40 miles from the sun

As darkness craves the mind
We come undone without our pride
No time on the earth to come
All the pleasures just begun
40 miles from the sun

In our coats beneath the layers
Wash my skin of all the hate
We should sleep late
Everything just kind of grates
40 miles from the sun
40 miles from the sun
40 miles from the sun

I need to lose to make it right
I'll confront the stars tonight
I will babble I will bite
You will never know how much you shine
40 miles from the sun
40 miles from the sun
40 miles from the sun
.


[40 Miles from the Sun, by Bush]


Uma flor de pétalas de seda abria-se sob ele. Descansava, quase desmaiado, sobre ela. Duas figuras recortadas contra o chão, três cores em degradê, do branco profundo ao mogno escuro das tábuas largas. A cor de canela quente dos braços delgados e pernas curvelíneas e magras dela, raios de uma mandala. O rosto ainda caiado de pó-de-arroz, fitando o vazio com olhos oblíquos e escuros. O cabelo negro de ambos em ondas e brilhos, misturando-se em curvas como dois rios. A brancura inumana dos músculos dele recortando das sombras sua forma no primeiro plano. Salpicos de tecidos rolando suaves na brisa quente bafejada pelo climatizador. Flores de tecido e resina em pentes e palitos decorativos, retirados um a um, um grande jasmin repousando recostado ao punho grande demais, sujo do sépia imundo de coágulos. Os olhos fechados da fera que dormita, a face acolhida entre os seios pequenos e o queixo pontudo e frágil dela. Armas repousando em cinturões ainda enlaçados no quadril despido, transpassados a um torso já nu, enrolados a uma perna dobrada displicentemente.

Detalhes... Passa-se mais de uma hora sem que nada se desfaça. Ela trai-se: fita-o, de repente, atenta além do que sua compostura lhe permitiria. Emoções trovejam pelo rosto suave. A palma macia recolhe-se, ergue-se como uma serpente e assim desliza no ar até tocá-lo, muito mansa, com medo, no omoplata largo e saliente.

Ele imediatamente enrigesce o corpo e rosna, a garra esquerda já ao redor do pescoço fino da escrava, a mão direita segurando a adaga que a pinicava na altura dos rins. Os dedos dela tremem, depois se forçam contra o relevo abrupto do trapézio. Um milésimo se passa, ou mais, enquanto ele acorda e sustenta um olhar predatório contra ela, como se não a reconhecesse.
- Está cansado e o banho vai esfriar.
- as palavras fortes dão a ela um alívio, como sempre saem duras e impessoais ocultando o borbulhar de seu pânico: pela forma resoluta com que as pronunciava poderiam até ser tomadas por uma ordem.

Desarma-se e volta a olhá-la com seu jeito costumeiro: levemente feroz e perigosamente entediado. Toma a liberdade de mordê-la, farejar-lhe os ombros e lamber-lhe o gosto ambarado de seu suor misturado aos dos óleos perfumados com que se envolvia. Ela geme baixinho e suas mãos geladas tecem nele frases que ela nunca irá lhe confessar.

O ato recomeça, mas diferente - doce. Ainda assim há um limite claro entre eles, que não esmorece nem quando ele lhe ronrona veludosamente por mais, mais! e só o que ela consegue pensar é "Que mais é esse? Como decifrar o que uma criatura como você quer além do que estou te dando???"

E assim acabam entrelaçados sobre um divã, o couro negro reclamando abaixo deles, a cada mudança de peso. Veja, as bocas nunca se encontram. Nos olhos dela nunca submissão ou carinho. Nos dele só a reafirmação da posse, um tom de desejo ou de prazer. Quando a respiração se acalma, ela senta-se sobre ele e revista-lhe o peito marcado de hematomas grotescos.
- Onde estão os frascos com regenerador?
- Deixe assim.

Desde quando ele se permitia ficar debilitado? A resposta a surpreende. E aquele relance de preocupação que ele capta talvez seja o motivo para que ele avance sobre sua guarda aberta, quebrando protocolos implícitos entre eles:
- Você morreria por mim?
- Não.

Um leve crispar de nariz e cerrar de sobrancelhas. O soslaio de um canino enquanto ele bufava algo com desprezo. Então o velho olhar baço, corriqueiro:
- Se você pudesse, me mataria?
- Para que?
- Para ter outra vida.

O silêncio acumulou-se entre eles. A voz dela estocou-lhe:
- Gostaria de ser livre.
- Me mataria?
- Não.

Remexeu-se, incomodado com a seqüência de respostas que não lhe soava coerente. Talvez faltasse lógica. Talvez desconfiasse que estava faltando honestidade. Talvez estivesse simplesmente decepcionado.
- Por que não?
- Adiantaria?
- Se sua liberdade dependesse disso...
- Não conseguiria.
- Mas tentaria?
- Isso é mórbido.

Segurou-lhe com firmeza nos braços e a encarou. Aqueles olhos de fera, amarelos.
- Tentaria?
- Você jamais seria vencido por mim... eu não tenho nenhuma perícia nisso...
- Se soubesse que iria conseguir, tentaria?
- Por um milagre?
- Pelo que fôsse - encurtou, perdendo a paciência - se tivesse certeza de que me mataria, faria?

Ela mergulhou um tempo naqueles olhos claros demais, depois arrepiou-se, tentou descer dali, mas ele continuou mantendo-a a sua mercê. Os olhos puxados perderam-se entre as tábuas do chão. O lábio tremeu um pouco.
- Não.
- Por que?
- O que quer com isso?
- Só responda.
- Não sou suja assim.
- Nem que fôsse conseguir o que mais sonha? - "Suja" a palavra o chicoteava.
- Me tornar uma assassina não é uma opção.

Era assim que ela o via?...
Deixou-a ir, enquanto o núcleo de seu ser enrolava-se em torno dessa pergunta. E das perguntas que nasciam dessa. Não escutou os passos macios dela. Mas despertou quando ouviu-a chamá-lo. Andou devagar, como um tigre entediado, pensando se ela acreditava que ele a mataria realmente. Por que não? Não era o que ele fazia aos humanos? Se ela tentasse algo contra ele... mesmo sem ordens... ele não revidaria?

As pegadas dela evanesciam em vapor. No fim da trilha, sua concubina o aguardava, de pé sobre os degraus de taboão. A banheira rescendia a cheiros alcalinos e perfumes artificiais.
Aproximou-se e notou que ela já retomara seu controle impecável da situação. Retirou os coldres, com dedos lentos em cada presilha, enquanto sua atenção se movia aos gestos dela, despindo-lhe o uniforme.

Retirá-lo parecia dar a ela uma grande satisfação. Por algum estranho raciocínio, ela odiava aquela coisa. Ele fingia ser contra a sua vontade. Mas o comando era seu. E o tecido, que tomava uma textura emborrachada, amontoava-se negro aos seus pés e então, escorria, tornava-se uma sombra contra o chão. Acompanhou-o quando o assassino subiu os degraus e entrou na água morna. A escrava cuidou aquilo com asco, arrepiada, antes de sentar-se na borda e puxar-lhe pelos ombros contra suas pernas.

Encaixou a nuca contra as coxas dela seguindo o ritual. Fechou os olhos amarelos permitindo-se flutuar num mundo de mortos, ordens, rixas e falas dissimuladas. Mesmo a jovem cor de canela diluindo-se em massagens gentis, sabia que era uma questão de obrigação imposta. Aquela doçura era também farsa. Mas ela era sua. Sempre seria, mesmo que o odiando.

Ilusões... erros de julgamento...


[The Slave with a Key - parte 4]

... crueldades pequenas e grandes...


Relanceou o olhar sóbrio e descrente pela vastidão do seu loft, espaçoso e luzente, com tudo que ele conquistava e escolhia no catálogo. O suave aroma da madeira no taboão do revestimento. Flores em arranjos. E aquele perfume do corpo dela... rescendendo de cada objeto...

Estava particularmente indisposto e inquieto. De volta à sua gaiola dourada. Cheio de perguntas as quais ninguém respondera. Mas sobre as quais fôra questionado.

O farfalhar de seda brincou no labirinto de seu ouvido e a orelha moveu-se, triangulando a origem do som, batendo-se de leve com a insistência do ruído macio. Fixou o olhar exatamente no ponto de que ela emergeria, por trás da estante apilhada de vinis e bonecas de gueixa. Como o Sol ao nascer, foi camada a camada de cor cintilante e viva que sua concubina se revelou. Cuidou-lhe os traços conhecidos, sob a maquiagem ostensiva e icônica. Então ela abriu um leque, milímetro a milímetro, e o fez dançar em harmonia com seus próprios movimentos, num malabarismo que o hipnotizava-o de pé, no primeiro passo ainda.

A peça de tecido dourado e bordados negros parecia um animal adestrado brincando entre os dedos pequenos dela, contrastando em fulgor com a brancura do pó-de-arroz. Os requintados desenhos se borravam nos rodopios. Sim... voava como um pássaro... mas não ia muito longe, pousava de novo na ponta daquelas unhas... subia e caía... sem conseguir chegar a lugar algum... um pássaro... aleijado...

Só percebeu sua tensão quando ela já tinha lhe escalado todas as vértebras e inclinado seu pescoço para frente e seus ombros tinham recuado preparando a reação elástica do bote. E quando ele chegou sobre a garota, o fez de tal forma que alguém poderia pensar que ele entrara na coreografia - exceto ela mesma.

Mas não teve tempo de reagir. Sequer teve um instante de pausa, e quando ela abafou seu grito de espanto, ele já tinha terminado o ataque. Viu quando ele apanhou o leque no ar e o esmagou na garra fechada em punho ao tocar o chão sem som. Os restos de osso e laca nevaram sobre seus cabelos e seu rosto atônito. Ele a encarou enquanto ela segurava a respiração e se controlava para enfrentá-lo. Rasgou a bela barbatana de cetim teatralmente, como para marcá-la, lentamente, efusivamente, e pedaços entrecortados de uma cena de família, rostos alegres, crianças correndo, andorinhas, árvores nodosas e torcidas como bonsais, rolos de nuvens, lamparinas, e um brumoso vale de cumes verdes, adejaram ao redor deles. E morreram entre as botas empoeiradas e os pés pequenos e descalços, que quase se tocavam - pareciam mesmo, agora, restos mortais de uma ave desmembrada...
- Podia ter dito simplesmente que não gostou. - ela sussurrou a ele no seu tom rotineiro: monocórdico, de um respeito afrontoso e uma serviçalidade sarcástica - Vou limpá-lo para seu banho, a banheira já está cheia e a água na temperatura que prefere.

Agarrou-lhe o pulso assim que ela lhe tocou para desnudá-lo. Puxou-a contra si, seco, e aquelas pequenas maldades lhe aguçavam os caninos. Aquilo era um ato de beligerância entre eles: obrigá-la a aturar-lhe o corpo ainda coberto das suas vítimas... Como se a obrigasse a compartilhar o mesmo destino dele...
- Seja digno. Lave-se primeiro. - a escrava protestava, sem altear a voz, num cicio sem ódio ou paixão aparentes.

Com aquela face que parecia uma máscara inexpressiva, ele usou sua força, sem feri-la, simplesmente envergando-a. Inclinou-a sob ele desfazendo parte do uniforme numa poça.
- Sou um monstro? - perguntou-lhe entre dentes, e apesar da fúria que lia em seus olhos amarelos, a pequena mulher sussurra-lhe tão baixo, que o áudio ficou ininteligível na gravação:
- Sabe a resposta. E você se orgulha. Gosta de ser o que é: olhe o que faz.
- Se sou uma fera... você é minha presa... Então cale a boca. - rosnou para ela inclinando seus lábios junto ao pescoço fino, cor de canela.

Torceu-a e teve dela suas carnes profundas, com gana, entre arfares de raiva e um prazer que só o redimia pela metade... Havia um nó na garganta que apertava e apertava...

E a esperança que ele jamais se dera conta, ofuscava-se em sua alma de asas cortadas.


[The Slave with a Key - parte 3]

... o coldre perfeito...


Tudo era metálico e assepticamente ordenado. Uma luz apática, fluorescente, deixava todas as coisas cítricas. Uma ou outra lâmpada piscava ao longo do corredor de portas numeradas e códigos de barras. As solas das botas dos outros marcavam a cadência dos passos repetitivamente, e enojavam-lhe. A borracha guinchava contra a lâmina reluzente do piso: tinha ânsias de rasgá-los.

O lugar obrigava-o a lembrar-se sem cessar de que era um Projeto da ShinRa. Uma arma deles. E estava sendo guardado no depósito. Tocou na chave que pendia em sua garganta e puxou-a de lá por sobre a cabeça. A corrente cantou para ele. Um som bonito. O cartão metálico exibiu um flash nos veios de cobre do chip e escorregou para dentro da fechadura e para fora com um BIP musical e um estalido de travas, rotineiro. A porta de contenção abriu-se com um bufar de pistões pneumáticos. Sabia que tinham anotado coisas sobre sua última missão. Seu comportamento...

Hesitou em entrar. Ali era onde o trancafiavam no vazio entre as missões. Talvez um dia não o deixassem sair. Ouviu às suas costas um riso furtivo. Mirou sobre o ombro. Todos o cuidavam, aqueles vários rostos humanos, sem nome, sem nenhum tipo de contato com ele que não fôsse esse protocolo. Silêncio e concentração. Escutava a arritmia de seus corações muito mais alto, agora, que se detivera e os encarava. O cheiro do suor que gotejava de seus corpos. Medo. Sabia exatamente quem fôra. O homem se encolheu.

Eram humanos, não podia... Vestiu a corrente lentamente sobre a cabeça e aceitou. Entrou.

Sua 'tropa de apoio' aguardou entre as paredes maciças até que a passagem se lacrasse uma vez mais e as enormes lingüetas de aço estalassem sinalizando que haviam cumprido sua missão. A câmera de vigilância enquadrou os rostos aliviados, depois arrogantes dos soldados. Eles já voltavam, sem incidentes a reportar.

Um deles não será mais escalado...

[The Slave with a Key - parte 2]

sexta-feira, 15 de maio de 2009

... há quanto tempo?...


O último caíra...

Olhou as garras - escarlates - num gesto mecânico. Aproximou-se, o mesmo passo: vagaroso e absolutamente silencioso, com uma cadência enganadoramente displicente. Ergueu-o com um pulso, sua postura e suas feições demonstrando uma apatia entediada. Encarou os olhos já baços do jovem.


Não mais que quinze anos, calculou, frio. O nome daquele alvo fôra... Jeremias... Jeremias... da família Silberburn... Um protocolo 2, filhote de tubarão - ordem vinculada: eliminar, não aceitar rendição, não permitir fuga. Jeremias...

A imagem chiada e desfocada de um cãozinho sendo atropelado e vozes abafadas.

Piscou. Encarou-o ainda mais fundo, de mais perto, farejando o cheiro que subia de suas tripas ao hálito, do suor salgado e fedorento, da terra. Esperara algo mais... Talvez um derradeiro contra-ataque. Um truque que pudesse surpreendê-lo.

Quando encurralara o garoto, minutos antes, contra aquele muro, algo - um sentimento estranho - fincou-se em seu peito. O que o causara? O olhar de reconhecimento que o rebelde lhe lançara? A palavra muda que ele abortara nos lábios? Já matara outros ainda mais jovens. Mais indefesos. Por que aquilo???

Chacoalhou-o, irracionalmente, tentando acordá-lo do Último Sono. Aquela sensação, como um zumbido de inseto no escuro, dispersa e presente, inconveniente, que não se condensava em pensamento.

Girou o corpo a leste e a oeste: silêncio. Ceifara todo aquele núcleo de terroristas. Era esperado que reabrisse o canal de comunicação com o QG dos Cannibals. Confirmasse sua identidade com a senha da missão. Passasse as coordenadas para que o resgatassem.

Outra vez distraiu-se reparando no cadáver que pendia do seu braço. Um fruto seu. Sem semente alguma. Levantou-o à altura do peito. As sardas num jogo de contraste, brincaram com suas retinas hipersensíveis. Aquele chiado de fatos incoerentes e atemporais rebobinando em seu cérebro. Contraiu-se. As pupilas implodiram numa fenda estreita, depois quase em um ponto mínimo.
- Jeremias... - ouviu-se sussurrar com dor. Não entendia como, gemeu, o fôlego preso quando uma convulsão perpassou seu corpo e grossas águas mornas derramaram-se das maçãs do rosto branco porcelana ao uniforme negro.

Assustou-se. Apalpou a garganta e num surto ancestral jogou longe o cadáver, horrorizado com algo inexplicável. Primitivo, ou infantil. No entanto, o som que ecoou e ressoou em seus ouvidos foi um barulho feio. Cruel. O fez recuar.

Deixou que os metros os separassem. Mas com o rabo do olho cuidou ali. Percebeu onde o esbarrão deixara uma nuvem rala de sangue que interrompia uma das frases contra a ShinRa. O corpo desengonçado chamava-o como um ímã. Ficou de pé, contido, mas não teve como segurar sua mente - e ela se debatia entre vozes em luta. Diziam que deveria tê-lo ouvido. Que deveria ir embora. Enterrá-lo. Livrar-se dele. Um alvo. Um assassino. - Hey, o que manda?...

Estava hiperventilando e fez uma anotação mental sobre os sintomas perguntando-se se estava enlouquecendo. Por que estaria???

Rugiu, quando a pressão parecia que ia desligar seu córtex. O bramido espalhou-se através de mais de um quilômetro de destruição. Agora o silêncio estava em sua cabeça também.

Sentou-se sobre enormes cacos de um prédio bombardeado aquela manhã. Abaixou a cabeça, dolorida. Fechou os olhos. Podia escutar seu treinamento como a estática de um rádio, tentando sintonizar. Tinha cumprido a sua missão, sem falhas, outra vez. Por que se sentia derrotado?

Num perímetro de centenas de metros, restavam só ele e aquele garoto. Estropiado. Ergueu-se e desceu da colina de detritos, ajoelhou-se devagar ao lado do outro. Estropiado. Puxou-o com cuidado, virando-o, até que os olhos secos de pupilas paralisadas focassem o céu cinza. Como se buscasse ajuda, lá. Desamarrou o cantil do cinturão e despejou uns quantos goles na pele curtida, suja e escoriada de um rosto ainda sem barba. Alisou o seu, sem se perceber - também liso. Tentou dar-lhe alguma dignidade. Arrumou-lhe as pernas e cruzou os braços em pedaços sobre o peito imóvel. Teria sido um homem forte...

... Mas não agora... Não mais...

Passou a mão, na verdade uma garra, ajeitando-lhe os cabelos bastos enquanto perdia a sensação de onde estava e quem era. Emplastrou naquele gesto a testa do menino com sangue pastoso e restos de osso e massa encefálica. A vertigem esbarrou nele por dentro com a força de um trem - mal teve tempo de torcer o corpo. A gulfada ácida rebateu-se nos torrões de cimento e ferragens retorcidas perto de suas botas. Jeremias! Era esse seu nome...

Nunca antes... Havia algo muito ruim naquilo que fizera ali. Sons e vozes outra vez, baixas demais e, de repente, seus lábios se crisparam e ele chamou entre os dentes. - Jeremias, hoje não...
Arregalou os olhos quando um arrepio lhe pôs de pé. Cambaleou dali. Mesmo que tivesse a exótica vontade de velar sua vítima. Ou fazer algo por ela. Algo que não sabia o que seria...

O Sol caía...

Parou. Cuidou no chão seu rastro em círculos, desnorteado. Estava atrasado. Muito. Deveria tê-los contactado há horas. Num jorro de adrenalina abriu o canal recebendo um zunido e gritou que viessem apanhá-lo, com a senha e frases furiosas repletas de palavrões dando as coordenadas de um ponto a 5 km dali. Após o 'câmbio desligo' correu daquele deserto assombrado.

Queria ser logo içado e levado para longe.

Para o jamais...


[The Slave with a Key - parte 1]

segunda-feira, 4 de maio de 2009

... nada nesta mão... nem na outra...


The sun is gone and the flowers rot
Words are spaces between us
And I should have been drown in the rivers I found of token lost
And I should have been down when you made me insecure

So break me down if it makes you feel right
And hate me now if it keeps you alright
You can break me down if it takes all your might
'cause I'm so much more than meets the eye

And I'm the one you can never trust
Because wounds are ways to reveal us
And yeah I could have tried and devoted my life to both of us
But what a waste of my time when the world we had was yours

So break me down if it makes you feel right (so break me down)
And hate me now if it keeps you alright (so break me down)
You can break me down if it takes all your might
'cause I'm so much more than all your lies

Hate me, break me down. (so break me down)
Down. (so break me down)

So break me down if it makes you feel right (so break me down)
And hate me now if it keeps you alright (so break me down)
You can break me down if it takes all your might
Because I'm so much more than meets the eye.


[Fake it, by Seether]


Ele a escutou chegar muito antes de vê-la... E seu aroma - aquele que o inebriava tanto quanto antes (ou mais) - foi o que lhe coube: um resto esquálido de tudo que ele sonhara para eles... um efluxo evanescente no ar mecânico de Midgard... que ele reteve para si muito mais longamente que a fração de segundo que, por um acidente, ela dividiu com ele, ao roçar-lhe na corrida para os braços do ex-Soldier...

Correndo, passando por ele como se fôsse um fantasma...

Correndo, endereçando a outro a flor violenta e sofrida do hálito de seus lábios, em palavras desesperadas... em súplicas de que lhe devolvesse os filhos raptados... que os salvasse para ela... - como se aquele assassino de pele de alabastro, postado a uns metros dali, jamais tivesse entrado em sua vida.


Passou por ele - uma onda de impacto - e o turbilhão incandescente e crescente de frases trocadas com Drako inflamou sua vista e seus ouvidos. E, desta súbita Rosa de Hiroshima, Ash recebe o baque e o vácuo. O cérebro desbotado em branco como os olhos cegos das vítimas para aquela luz que lhes é demais, a derradeira. Um instante de total não-existência, como aqueles infelizes que tornaram-se instantaneamente um simples borrão em carbono de suas silhuetas decalcado numa parede...

Então... como se realmente houvesse sido alvejado - como tantas vezes fôra - de uma só e aguda vez foi perfurado por uma dor ardente e tóxica. Os músculos quiseram contrair-se e puxá-lo sobre si mesmo. Arfou, pulmões achatados contra a espinha. Sem perceber-se, tateou o esterno e o peito. Mas o que o transpassara não lhe rompera carne ou ossos...


Desnorteado, testemunhou sem conseguir se negar a ver toda a cena... Apesar daquilo queimar-lhe algum órgão etéreo ou indefinido, ele permaneceu rígido e atento e tomou a missão para si, mesmo sem ser incluido - pôs-se a caminho. E passando por ela... Reteve seus passos... Dedicou-lhe o mais macio de sua voz, não compreendia a pouca importância do seu esforço - não só pelo momento, mas porque se originava de sua boca...

Entre as nuvens, afastado daquela criatura dourada e intocável, outra lhe mostrara o reverso daquela moeda... Veio a ele por sua vontade e jogou em seu colo suas esperanças, com uma honestidade de criança. Resistiu-lhe, hesitando, presumindo uma culpa por um tormento que logo ele perceberia, ser nada além de ecos numa concha oca...

Mas naquele instante - este mesmo, veja! - em que ele
se atira do corrimão da lúgubre Airship aos braços da esplêndida Ane, e seu olhar a abarca firme e confiante, lhe garanto que não o faz por um arroubo de paixão. Todos os seus tenros e frágeis sentimentos pela ninfa de fogo estão lacrados. O que divide com ela naquele momento em que seus corações explodem é o desejo febril de lutar a luta de sua família, de vencer sob as asas dela a distância que podia encolher sua vida, a qual daria sem pestanejar atendendo ao pedido daquela outra mulher...

E apesar da forma que se lança contra os tentáculos serpenteantes que partem a neve até rachar a própria crosta do Planeta, Amber só tocaria em seu nome como um covarde que fraquejava em determinação e caráter... Nem mesmo ter sobrevivido a grave tarefa de defender com aquela draconiana seus companheiros, insistindo em conter o avanço do monstro cujas órbitas oculares eram nada mais que crateras torradas agora, foi suficiente para que tivesse qualquer crédito em repousar depois naquelas ruínas...

Ele era uma ofensa no lar de sua amada, esta noite gelada. Seu empenho kamilaze contra o colosso vermelho tinto como sangue recém cuspido, ou contra o absurdo de um Cetra que empenhara-se em bani-los do Mundo - nada disso cobrira ele com os louros reservados ao seu amigo - ela só lhe coroaria com sorrisos falsos e estenderia sobre ele uma capa de mágoas encarnadas...

Capa que ele, só no fulgor bruxuleante daqueles minutos em que seus passos lentos o aproximaram do batente da porta, entendia agora não ter sido tecida para ele. Havia sido enganado, como por um truque de prestidigitação: tanto o amor, quanto os ciúmes que a nórdica lhe bordara, estavam lá - depositadas ao redor do pescoço de seu amigo. Onde estavam em seu lugar de direito. Por um floreio qualquer de espetáculo, algum entretimento ou hocus-pocus, fôra levado a pensar que o coração dela estava em suas mãos.

Jamais estivera...


sábado, 25 de abril de 2009

... chapeuzinho e o lobo...

[2ª edição]


O estrondo grave e vibrante dos motores e do maquinário acessório, com seus pistões e vapores apitando, sente-se até nas vísceras do ex-assassino. Uma pressão trovejante tamborilando em seus tímpanos.

É assim que ele prefere... Por isso veio tateando até refugiar-se exatamente aqui. Toda a agitação de válvulas, gorgulhos de tubulações, revolveres de hélices, assobiar de roldanas e craquelar de engrenagens... dínamos e serpentinas... relógios e foles... toda essa marcha impetuosa de decibéis em vários ritmos e timbres o remete aos campos de batalha, aos becos crivados de balas e gritos, ao troar das bombas - e então ele se sente seguro...

Uma ironia que ele seja o avesso da maioria das pessoas. O silêncio civilizado e a conversa moderada ainda causam-lhe a agoniante sensação de impotência e inutilidade. Contra isso engendrava sempre uma luta encarniçada. Cada vez era como se estivesse se afogando, algo inexpremível pesando contra suas braçadas, impedindo-o de tomar fôlego suficiente. - Para ele, estar naquele estado deplorável de inabilidade era estar vulnerável. Esse era seu instinto. E vulnerabilidade era um convite ao fracasso - o que, para um guerreiro, implicaria em uma das duas coisas (ou ambas): desonra... e morte. Portanto, sem dar-se conta, ele evitava o quanto podia ou debatia-se por dentro a cada reunião prosaica...

Há para ele duas únicas exceções a esse algo que poderíamos definir como "náusea da calmaria". Estar ao lado de Drako - que para ele é como... ... ... (receio que seja difícil demais tentar definir isto aqui, levaríamos um tópico inteiro - e tenho pressa, vejo que algo está para acontecer ali embaixo, você não?) - ou estar sobre uma mulher... Neste último caso a explicação é bem rápida: ele pode então escapar do seu esforço de incluir-se nos domínios humanos, e ser somente o que é, apetites e desejos, músculos e garras, e aquele olhar, ímpar, uma Lua em trânsito, para a qual tem-se de adivinhar a fase. Pois sua alma é um torvelinho tão intenso quanto o amarelo feroz daquela íris.

Enquanto falamos, ele se fecha, a nuca abraçada pelas mãos entreleçadas, forçando a testa contra os joelhos dobrados. As lágrimas não descem. Entalaram-se no caminho e sua mente oscila entre aceitar ou recusar o sentimento que o abate com tanta força quanto um soco em cheio do gigante Weapon, agora extinto. A garganta contorce-se e o choro não concedido explode entre os dentes cerrados com mais gana ainda, num som de tosses curtas e falhadas, dolorido e seco. Se mergulharmos através de seus nervos e atingirmos o cerne em tempestade desse produto de engenharia genética, poderíamos ver uma criança...

Num filme só para si, em cores desbotadas de magenta velho e um bege dourado, ele roda a imagem daquele menino que tinha ganho seu coração. Escuta-o repetindo frases que já ouvira, e seu olhar é tão vivo e presente que o machuca. O vê correr animado atrás da bola disputada com os outros meninos, na ladeira em frente à Igreja, e até mesmo a textura das pedras do calçamento lhe causa a tortura amarga de repensar perdas. As imagens se sucedem e se acha outra vez erguendo o olhar para aquela figura fantasmagórica, que o guiaria através da vastidão tão desesperançadamente branca... sim, justamente viera resgatá-lo quando suas forças o abandonaram e ele caíra... Todos os detalhes... o rosto sorridente como se o saudasse... o boné antigo... as roupas largas e puídas... E ele se levantara graças ao garoto, que iria mostrar-lhe a senda para achar aquele a quem sempre buscaria... sim, fôra a sua Estrela do Norte...

... Uriel...

O nome retomba por ele. Observe como corre o espasmo em seu corpo encolhido. Se estivesse mesmo certo, o que aconteceria?... Mas não. Não se deixaria estar com a razão. Não podia. Havia outra explicação: o Mundo era vasto, e ele só chegara a essa conclusão estúpida por não conhecer a verdadeira resposta. Era isso... Tinha que ser!

... Uriel... ... ... Uriel ao lado de Kuroi...

Não admitia ter tido essa desconfiança. Tem medo que, como naquelas lendas, seu pensamento se solidifique em realidade. Então, está se esforçando em negá-lo. Porque... como ele diria isso ao ex-Soldier?... Como o golpearia com essa notícia, sabendo que reabriria aquela ferida profunda e larga, que nem tinha certeza de estar se fechando?

Não... Ele jamais poderia ter sido insensível à tal nível e imaginar algo assim. Os fatos não podiam ser tão inclementes... era como tripudiar sobre um lutador quase morto...

... mas... quantas vezes, essa mesma crueldade do destino não havia soterrado outros... pelas suas próprias mãos sangrentas, o uniforme reluzindo no brasão da Compania ShinRa?... E seus dedos, levados a essa questão, tremem, como se tivessem nojo e horror de si mesmos, da impressão carmesim decantada no fundo de sua derme... - Sim! - a vida é cruenta e impiedosa, e Kuroi seria capaz de fazê-lo, e nenhum poder, aquele TODO, iria impedi-lo de realizar mais essa injustiça. Sabe disso, pois DEUS jamais o havia alvejado, ou paralisado seu braço, ou lançado-lhe raios ou labaredas apesar de seus crimes. Ele era a prova viva de como os fracos estavam entregues aos fortes nesse Mundo, o quanto careciam de uma manifestação improvável de intercessão sobrenatural para salvá-los. Por mais rezas que gritassem aos céus, quem lhes protegera fôra sempre outros como eles, de carne e osso...

Atormenta-se: que estratégia poderá usar para defender Drako e sua família desse baque - insubstancial demais para ser bloqueado por um escudo, ou refletido com um golpe?... Etéreo demais para que possa esquivar-se dele com ginga, ou contê-lo com o sacrifício de seu sangue. Se pudesse tomar todo o impacto sobre si... Como poderá se interpor a esse dano?

Percebe como ele demora a escutá-la chegar? A grossa espiral de perguntas sem resposta o torna surdo, a princípio, ao chamado dela. Porém, como o Sol renasce a cada madrugada, num degradê de cores suave e contínuo, a voz dela perfura pouco a pouco essa carapaça de dor e dúvida e o atinge mesclando sua alma com a sensação morna de um lar... O rapaz engole a bola de espinhos e lhe responde. Guiada pela sua voz rouca e abafada, ela se aproxima, lenta e atenta, montando para si o quebra-cabeças que era seu companheiro e seus extremismos insólitos.

A vista baça dele enche-se com o vermelho vivo dos cachos de Ane, que escalam-lhe o ombro e emolduram-lhe o rosto de fada. Ela lhe toma a mão, acaricia-o através das bandagens marcadas de escarlate escuro e sienas. Com uma dedicação amável, ela lhe fala sobre um Ash que ele jamais percebera... Seu perfume desabrocha no ar como jasmins ao sereno da manhã, assentando-se languidamente no ambiente saturado de graxas e combustível, e levando consigo uma estranha inquietação ao cérebro sensível daquele macho.

Sob aquele chão trepidante, a poucos centímetros dele, ela tropeça em palavras confessadas, patina nelas ao vê-lo tão perdido e curioso. Talvez esperasse dele outra reação. No entanto, como em outras ocasiões, ele enredava-se numa ansiedade de privação - era como lidava com aquilo - era estritamente neutro com ela, virava as costas às suas graças, amarrava todos os seus impulsos naturais. Uma disciplina que aprendera a cultivar graças à convivência com uma tal Srta. Lunia, tentação para a qual se excluíra sem jamais escorregar. Fôsse como fôsse, recusava-se a pensar nela sexualmente. Fazia-o não por qualquer exclusividade de libido por Drako, ou Amber... Tentava não admoestá-la - crera desde o princípio que aquela criatura exuberante pertencia ao loiro.

Mas palavra a palavra ela o despia dessa idéia. E o cão, a sós com ela, desamparado como estava a bem mais tempo do que poderia remontar, reluta em entender, sentindo cada fibra, desde a ponta de seus dedos decepados até os dendritos de sua massa cinzenta, saturando-se de uma compulsão confusa: desejava interrompê-la puxando-a contra si, acolhendo-a e calando-a com seus próprios lábios...

O toque lembrava-lhe Amber. O companheirismo, a história mesma de terem partilhado lutas, lembrava-lhe Drako. E mesmo suaves, essas memórias evocam uma espécie de culpa inculta e hesitante. Aquilo era errado? Sentir-se assim em sua presença de alguma forma feria-os? Aquele desejo que lhe subia pela virilha e dava voltas em seu estômago e descompassava seu peito eletrizando-o inteiro era desrespeitoso aos dois? A sensação pungente de partilha, de igualdade, de uma certa identificação, poderia ser uma traição? O que dizer daquele leve ciúmes que o intoxicava quando a atenção dela convergia ao amigo loiro, mais forte, mais carismático do que ele jamais seria?

Uma diferença de pressão podia ser sentida, como se um tufão estivesse se formando. O rapaz cor de porcelana fareja nela o constrangimento, a intenção de fuga. Estava acordando e encarando-a a primeira vez e simplesmente não podia deixá-la ir. Sua genética precisa de predador dispara um impulso fulgurante por sua medula - num relampejar ele toma-lhe o pulso esguio e alvo, ancorando-a ali.

A figura frágil e aguerrida, sensual e meiga, detém-se a sua frente, sem protesto. E a novidade desta reação criou uma avalanche de suposições. Escutando-a ouvia o sussurrar de sua mente que lhe dizia que tinha sido tolo, e um sentimento de atraso e de obviedade - ela teria lhe compreendido, ficado ao seu lado?... ela, que não era humana?... ela que era um monstro como ele?... ela que já matara, que era compelida pelo ardor da guerra?... ela que agora abria seu peito orgulhoso às perguntas cinzas dele? ... ele a magoara tendo partido?

Como um hematoma que é tocado, a situação, a cena em si, carrega a ardência de seus desajustes com Amber - e ele solta a ruiva, devolvendo-lhe a liberdade que a outra sempre reivindicara. De repente foi inundado por uma torrente fria de medo: não queria fazer nada que destruisse a tênue aliança que tinha com ela, ainda mais sabendo que ela nutria um sentimento por ele. Isso tornava cada gesto mais significativo, mais carregado que para outros - aprendera essa lição... Ela buscava algo nele, dissera-lhe... Sabia se ele tinha isso? Ou descobriria depois que não e o deixaria para trás, como um pente vazio?... Surpreso, deixa rolar de sua boca uma frase balbuciada, manca. O suficiente para retirar dela o resto de auto-controle e dar-lhe impulso para correr dali.

Ergue-se, seu senso de caçador cintila por seus músculos e juntas outra vez. Contém-se, porém. Capta-lhe as mãos esguias que escondem-lhe os lábios. Some de sua vista, de suas narinas incisivas. Repassa o diálogo curto que travaram. Roça as pontas dos seus dedos umas contra as outras, o tato ainda cheio da impressão daquela pele branda. Sua vontade teima em pedir-lhe que não a deixe só, que a toque, que a enrole em seus braços. Não queria que sofresse. Mas ele as fazia sofrer quando juntava-se a elas, não tinha sido assim?... Tenta acalmar-se: seu pulso está acelerado. Estremece de cima a baixo sacudindo a tensão do corpo. Um rubor violáceo colorira levemente as maçãs ossudas do rosto subindo do peito pelo pescoço. Queria pensar melhor naquilo, mas sequer conseguia puxar o fio da meada. A declaração inesperada de Ane sacudira seu mundo. Está perplexo.

E então... um sorriso. Pode vê-lo, como eu?... É fraco, passaria despercebido à maioria das pessoas. Mas abre-se um pouco mais enquanto as sobrancelhas se arqueiam franzidas e quase se tocam sobre o nariz. Não só isso: desce por dentro dele como uma raiz forte, brilhando como mako na turbidez de sua alma.

sábado, 7 de março de 2009

... me ensina...

[editado em 15 de março]

Quero fazer deste texto uma homenagem... Alerto que é algo estritamente pessoal. Se quiser ler, tenha um pouco de paciência... e discrição...

Pelos lábios de minha mãe eu soube que já fui um dia uma menina que cantava para desconhecidos... Dançava para os adultos nas reuniões de família... Tinha um sorriso encantador e gargalhava facilmente... Eu pertencia à euforia da vida, como as rasantes das andorinhas, o desabrochar das flores, as revoadas de borboletas e o nascer do Sol...

Minha memória não ajuda muito, mas sei que aconteceu... Fiapos de imagens e sensações... Mas o que pesa em minhas lembranças de mim mesma é o imenso período em que tudo se turvou... Onde cada luz foi lentamente apagada. E minhas pequenas relíquias de criança foram quebradas, uma a uma - não creio que intencionalmente, mas só por descuido... e um pouco de ódio, talvez. Mágoa... Aquela pequena fêmea de cores vibrantes e presença fustigante foi murchando e enlutando...

Até quando agüentamos definhar e nos perdermos?... Qual a medida? O que nos faz deter a degenaração ou deixá-la nos jogar à cova que cavamos, dia a dia?... Houve um ponto, e não recordo a data ou a idade, mas sei que meu sangue ainda não tinha vindo às coxas, isso eu sei. Houve um dia em que fundei, ou incitei-o a formar-se... Um condensamento de tudo que se ía... um guardião do significado de estar viva...

Assim que o invocava para mim, o sentia, em minha mente. Tangível e visível. Audível em seus rugidos e gorgolejares ronronantes. Lustroso e negro como um veludo do véu da noite. Meu animal espiritual : totem, guia, signo. Se estivesse sozinha ou desamparada, sem força ou sem coragem, ele vinha soprado por meu coração. Bafejando liberdade na respiração intensa como seu olhar, contaminando-me com sua força inexpugnável de predador, emprestando-me essa confiança desafiadora de quem só consegue viver arriscando-se a superar, a vencer...

Pontualmente me pôs de pé, me fez erguer a cabeça apesar das lágrimas, me puxar de um cansaço anormal para uma menina. A fadiga de pensar tanto em morrer. Explodindo em palavras macias e incisivas, ele convencia minha parte mais frágil a dar chance aos dias. E a mim mesma. E quando tudo era só cinza... sua exuberante ânsia de viver transformava o Mundo que eu passava a ver pelos "seus" olhos.

- Você vai conseguir. Somos um. Tente, com mais gana!

Minhas pernas e pés doíam, e eu sorria, pois ia treinar até correr mais que meus primos. Subiria sim, aquele muro alto, apesar do frio na nuca trazido pela fobia. Apesar do meu corpo pequeno e leve, eu protegeria sim os menores sendo absolutamente selvagem em meu destemor.

Seu chamado profundo, é uma conexão que - estranhamente - me resgata não para dentro de mim mesma, mas sempre para fora. Encontrá-lo num momento ruim ou simplesmente estagnado, é garantia de ser puxada de volta ao Mundo, sacudida por uma tremenda energia. E respirando em seu ritmo, ser impactada por todos os detalhes, desperta para a Vida. Me sinto, como ele, mergulhada no enorme corpo de Deus, cravejado de coisas extraordinárias, cada ser como uma jóia, cada fenômeno como um milagre... Me ilumino em sorrisos e minha mente verte límpida, inspirada...

- Não vamos cair. Escuta como bate nosso coração? Forte, bravio, vencedor! E o céu, tão vasto e azul, tão longe, mas você o sente chamar, não? Vá, vá adiante, ele grita. E as folhas, o vento? Saúdam-te como irmã, te contam seus segredos e suas aflições... Vem! Corra comigo! Nós temos um lugar e temos um legado a construir!

Em todas as crises... Fiel...

Numa brincadeira de adolescentes ele surgiu com um nome... De uma vez, eu lhe inventara um passado. Ganhara um povo, ao qual pertencia por amor. Família... Um rosto com feições de gente, marcando seus próprios dramas... Deixando cair suas próprias lágrimas ou urrando sua própria ira... Como se fôsse recortado de mim, de repente, ele falava aos meus amigos. Tinha um Mundo só seu agora, mas, controverso que seja, ganhara o meu. Não era mais algo íntimo e velado. Estava revelado para um novo séquito de olhares e mentes... Lutava em linhas sobre o papel. Posava em retratos de grafite. E sua voz ecoava de mim. Através de meus músculos ele se encenava...

Tornei-me além de sua narradora, sua espectadora, sua fã.

Aprendi muito... Se nos arriscamos com coragem, realizamos o que se achava improvável... E se falharmos, não devemos temer: temos forças para deixar para trás e pular para frente. Voltei a não me constranger mais ao me expor, a ser extremamente honesta com os que me rodeiam. Acreditar outra vez nas pessoas, deixar-me ser conquistar pelo brilho de um olhar, tomar exemplo na resitência de uma alma inquebrável. Não repudiar mais aquilo que me é tão novo, diferente - buscar respeitar, aceitar e até mesmo amar essas desigualdades, ver nelas a multiplicidade que enfeita o universo, e o torna infinito de possibilidades, misterioso e fértil de futuros e novas verdades, novos caminhos. Com ele motivei-me a ter o caráter e a transparência de manter-me eu mesma apesar das pressões de tantas pessoas sem identidade, de tantos que dizem amar para castrar, dos julgamentos de uma sociedade que não limpa sua própria podridão.

Jamais domesticar-me...

Mais de vinte anos... E Ash mantém-me sempre surpresa. E eu o mantenho sempre ocupado - ele nunca me falha. E quando ele também se rende ao silêncio - tenho certeza que os que amo (e que me amam em parte por auxílio dele) virão nos resgatar... E nos prover de um lar e um calor...

até que possamos correr novamente livres...
jogados com paixão no vento...
sem arreios, sob o infinito desse céu irmão...


Meu totem, obrigada... por tanto.