segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

... se eu roubei...

Se eu roubei,
se eu roubei teu coração-ão...
é porque...
é porque te quero bem...

Se eu roubei,
se eu roubei teu coração-ão...
é porque...
tu roubaste o meu também...

[extraído de uma velha cantiga de roda]



Pelas frestas a luz filtrava-se em binários. Sombra. Sol. Listras esbarrando sobre seu corpo curvado. Fugindo num relance da testa franzida. Ar pesado arqueando suas costas. Um ar rarefeito em seus pulmões... lentos... Pulmões geneticamente talhados. Á perfeição. E ainda assim... esse ser perfeito... era imperfeito para o Mundo em que agarrava-se a viver...

Um lobo que teimava em bandear com os cordeiros. Uma fera desacorsoada, amansada, presa em seus novos votos... Em suas novas convicções... Numa fé... Num amor... O amarelo de sua íris cintilando no escuro me lembra um anima de zoológico... Sim... farejando seus dias acabarem rumo à noite final, sem saborear mais o gosto de estar vivo...

Tinha sim um lugar, num mundo ligeiramente tangente àquele que ancorara seu coração: era uma arma. Uma arma biológica - um assassino. Feito para rechaçar ameaças... algumas antes mesmo de terem chance de se mostrarem... Mas agora... Agora essa arma filosofava. Ponderava objetivos. Sentidos. Seu passado. O futuro.

Onde estava a labareda incontida de seus olhos? A onda arrebatadora de seus impulsos?... Recostado, seu rosto de porcelana imóvel se envolve em espirais de fumo ambarado. Os lábios tocam o cigarro e tremem de leve. Macio... como tantos beijos que já roubara, e alguns que ganhara sem aviso, sem violência... Morangos... Dois azuis... Dois dourados... Fechou o olho com tanta força que linhas sulcaram seu rosto e seus longos pêlos da sobrancelha se eriçaram num viés quase deitando-se contra a quilha do nariz.

Nos dias que se passaram tornou-se solitário... um animal moribundo que retrae-se com sua enfermidade para longe... Trabalhava com afinco tão logo havia som de obras... Comia de pé entre uma tarefa e outra, no pó e no Sol... Conseguia conversar, até mesmo sorrir... E quando recuavam de volta a seus lares... Subia a seu esconderijo... Se deixava ficar, em silêncio total... Escondido de todos, exceto de si mesmo... Carregando todos eles em si no apertado sótão da Igreja...

Drako... Amber... Ace... Uriel...

Troy... Anamae... Ike... Miguel...

Tantos...

E um...

Kuroi...

Teria de matá-lo... mas... e Drako?... Era tudo tão lógico. Tão correto - tinha que acontecer. Inevitável. Tão próprio: heróico - sim, abster-se de si para o bem do Todo... Rangeu os dentes. Tentou caçar estrelas através da telha afastada. Pensamentos debatiam-se em seu crânio - uma revoada de corvos. Asfixiante... Tinha que ceder... tinha que ser desapegado... acatá-lo...

Um gosto salgado na garganta. Atrás do nariz... Fungou e riu. Fogos de artíficio num telhado... O motor de Fenrir... Cores de fogo num horizonte banhado de mar... Uma lareira, um corpo ficando gelado... O medo, como jamais tivera... De um jeito novo, profundo e aterrador... suou frio... Aquela voz baixa e arranhada entremeara-se contra ele... Escalara sua alma... Fincara raízes no cerne negro e vermelho que era seu centro isolado e duro... E o erguera de encontro ao Mundo... Ele pudera finalmente ver... Sentir... Pensar... Viver...

Recebera tudo isso sem ter pedido nada... Por que?... ... ... Então... Lentamente... um raciocínio sussurrou abalando cada fibra dos músculos esguios... Algo que jamais pusera em palavras... Talvez jamais tivesse percebido assim... Sua pele se arrepiou quando entendeu...

A quanto tempo o outro o amava?...

Apaga-se tudo, zonzo... Foca os dedos... ainda derramavam suas lágrimas vermelhas sobre o madeirame... Havia esquecido-se das talas...

Marcas no chão como pétalas fulgurantes... Pensou em tudo com um sentido pungente de gratidão e uma falta tão profunda em si como se estivesse no enterro de todos eles...

E desceu...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

... a maçã de Asgard e o Lobo...

Wherever you are
You will carry always
Truth of the scars
And darkness of your faith

Slowly move on
How did we get to here
It all went wrong
Gravity claiming all your tears
Everything looks so much better now
Looks so much better now (...)

You have no right to ask me now
You were never that around
And I have missed

Reality daytrips
And your suit me, suit me ways
Turn out the light switch
We've been awake for days
And no one's coming round here no more
No one's coming round here (...)

You have no right to calm me down
You were never that around
And I have missed
I have missed

Cold contagious
All the mighty, mighty men
What you save is
What you lose out in the end
Cold contagious
Cold contagious

Paint your perfect day
I don't mind this
I'm better off, by the way
Deeply grounded (...)

Cold contagious
All the mighty, mighty men
What you save is
What you lose out in the end (...)

[Bush - Cold Contagious via FoxyTunes]



Uma sucessão de dias praticamente perfeitos. O mais possível para mortais. Sua moral estava tão elevada, que ele sentia-se muitas vezes obrigado a pausar tudo e firmar os pés no chão... Então, coroando isso, ela... Improvavelmente, ela - ali, à espera, desvendada num abrir de portas do velho elevador... Amber... O nome vibrava nele... Como uma represa que tenta conter o maior dos dilúvios... Como o brilhar vermelho do fruto proibido a um faminto... - haveria como negar-se?...

De tantas coisas gigantescas e pesadas - puro instinto - que ele havia aprendido - onde encaixava-se Drako e ela? Ou sua nova família?...

Sua mente, por mais que soubesse por programação todas as belas palavras... por mais que as vezes, permitisse dizê-las, apesar de sentir-se vulnerável e tolo... por mais linhas que tivesse deixado correrem de seus dedos ao vazio compreensivo da Rede... sua mente, não estava preparada para isso... não sabia o que aplicar... como lidar com isso... Uma espada não sabe amar, consolar ou proteger... mesmo que tenha dito ao pequeno: eu o protejo...

Mas ele era capaz de sentir... Entregando-se sem coleira e uivando muito alto ele contou aos Céus o que era isso... O coração parecia não suportar... Seus pensamentos fugiam, frívolos, de qualquer responsabilidade, pois ele era todo aquele sentimento novo e imenso - felicidade...

Agora percebia-se invulnerável, conquistara algo, não sabia bem o que, que lhe fazia destemido - uma certeza ardente de que poderia mover o Universo e que tudo tinha de acabar como aquele momento - neste fulgor quente e eterno, que transpassava seu peito e transbordava em seu olhar. Sim, ao final, seriam todos felizes como ele...

Quando o esculpiram com esse DNA de quimera, misto de tantas coisas e daquele serzinho chamado Zero, quando lhe treinaram, quando o enviaram para simplesmente matar, sem perguntas, sem motivos, alguma vez preveram o que lhe acontecia agora?...

A fera chamada Sete, ou Ash, ou Fenris'úlfr, à mercê somente de si mesmo e da orientação destes que ele seguia... Que elos estavam o restringindo? Que comando, que poder? Que Deus estava disposto a alimentar sua fome crescente? - o amigo... sim, ele dava de si pedaços cada vez maiores... E esta mulher, insensata, que não o conhecera, dispusera-se a pôr a mão entre suas mandíbulas cruéis...

Era bom estar com ela... Ouvir-lhe as risadas. Ver seus movimentos. Escutar palavras desconhecidas para ele até então... Por mais que tivesse sido amado, jamais haviam lhe confessado nada assim... Alguém o chamava contra si e dizia - olhe para mim e me deseje, eu ficarei feliz... Nem a Srta. Lunia, ou sua escrava, ou aquelas pequenas crianças, ou seu grande amigo...

Teve medo. Aproximou-se com cuidado. Sabia que era perigoso a todos - Humanos eram suas presas, não seus iguais... Sabia que não saberia como reagir. Aquilo era novo demais. Mas estava encantado com a oferta. Maravilhado. Todo seu ser pulsava descontrolado, um tom muito acima do normal. Assim, jogou-se contra essa voz que o seduzira, abandonando todo o cuidado que jurara ter - sua própria corrente com que firmara-se na esperança de deixá-los seguros...

A possuiu, e isso o fez forte e intrépido, isso o fez andar passos adiante, distanciando-se daquela cadeia partida que era para o Lobo... Segurando-lhe a mão, viu-se um quase-humano nos olhos dela. - tinha que ser, ser o correto para ela, como ela lhe dizia... Uma fábula que ele acreditava e na qual estava escrito que destruiria tudo que lhes faz mal, engoliria a própria guerra e a discórdia, e assim, teria um lugar ao lado deles... Poderia correr livre pelo Mundo Novo dos sonhos de Drako... Nada os magoaria mais...

Porém, a mágoa veio. Foi a besta de olho de Lua, quem revidou as confissões dela. Falando-lhe com um rosnar incontido, sem rodeios. Com a pouca lábia do Lobo de sentimentos furiosos e primitivos, intensos como o cheiro do seu sangue, como o poder que carregava em suas veias, ele a castigou com a verdade...

Conhecer, nem sempre, é fácil... Muitas vezes, é duro. Como as mordidas daquela boca que ela beijara tantas vezes. Omissões e palavras dúbias, teriam mantido a fantasia duradoura, teriam lhe dado tempo - teria sido Humano... Um animal não conhece esse expediente, no entanto. É sincero em seu rancor e em sua estima... E ela agora entendia em que grau ele o estimava... e como lhe era fiel, ou não?! Sua fidelidade não é traduzível. Multiplicidade, dissera-lhe... Escolha, cobrara-lhe... E aquele vil coração de fera, desamparado, não pôde lhe desmentir, nem arrazoar, ou chegar a qualquer acordo, a qualquer combinação de palavras que explicasse, que reconciliasse...

Quase não quis recolocar em si mesmo aqueles grilhões. Sua aventura o desregrara... Difícil não usar sua força para manter o alvo de seu desejo. Não queria deixá-la ir, mas agora podia entender que jamais deveria ter lhe pedido que ficasse. Mesmo assim - tão terrível deter-se, libertá-la, afastar-se dela... Uma tortura quase ancestral... Em si, uma fúria e uma amargura crescentes.

Isolou-se - ele mesmo era Tyr, o Aesir e Fenris, o Lobo. Arrastou-se contrariado para a única caverna que lhe detinha: sua solidão... Rasgava-se por dentro e não tinha armas para lutar... Jamais sentira essas feridas antes, bateu-se contra aqueles tijolos, enlouquecido, despreparado... A dor de seus ossos não vencia a outra dor, intocável, inextingüível... Mas enganara-se de que estava só - e quando o viu, ah!... Fera indomada, espírito sem sossego, pulou sobre ele e abocanhou-lhe a alma, sôfrego, faminto... extenuado...

E como animal tolo, que tira o sangue do dono e depois entristesce, assim ele, só depois, perceberia-se do golpe que abatera sobre aquele que agora podia denominar "amado"... Mas... Lobos amam o mesmo amor dos Homens?...

Você juraria que ama o mesmo amor de todos os Humanos?...
Igual para cada um que está em teu coração?...

domingo, 28 de dezembro de 2008

... dê-me asas...


A luz pardacenta piscava um tanto... Ninguém se movia... Espalhadas num arranjo de volutas sobre o chão infecto, de um pó em pasta oleosa, as tripas em vermelho e membranas de Dois... quase um ramalhete de cravos encarnados, ao lado de seu corpo estirado...

... sobre ele... os joelhos de Sete... a figura inteira de Sete, mais jovem, mais decadente, mas... vencendo-o... seus dentes coroando a nuca de seu opositor... suas mãos... segurando os pulsos do outro... sua mente... ah!... sua mente... quantas moedas você daria pelos seus pensamentos agora que ele estava claramente dando as cartas de sua vingança?

Cães de rinha... Uma vida cruel e seca... Um recém estava aprendendo isso... o outro... As pupilas do homem chamado de 'Comandante' pelos CANNIBALS iam e vinham pela cena. Era necessária uma decisão. Iria intervir? Ou iria deixar que a luta prosseguisse até que um deles morresse... ou se submetesse ao outro? Sabia o quanto Dois era precioso... e também quanto era genioso e teimoso, dono de um orgulho aterrador... Estava disposto, portanto, a perdê-lo se o jovem vencesse sem tréguas?...

Um guarda engoliu em seco. Um rato passou chiando, de uma cela a outra. Uma aura expandiu-se e retesou o couro de Sete, arrepiou-lhe os pêlos dos braços e do pescoço. Seus olhos de Lua arregalaram-se. Não houve tempo. Arcos de um maravilhoso dourado cambiante uniram os dois corpos e chibatearam pelo chão em direção às grades, afastando os aparvalhados soldados. O som alto zumbiu e as faíscas riscaram em estalos o ar abafado. Os músculos de Sete contraíram-se ao ponto da asfixia. Seu coração parou. A carga corria pelo seu corpo balançando-o e finalmente lançou-o longe e alto.

Um centésimo de segundo congelado na retina absorta do jovem. Dois, erguendo-se, ágil, apesar de tudo, o uniforme recolhendo em proteção os intestinos antes expostos. Então sua própria queda. A espinha aciona-lhe os músculos potentes. Gira o corpo no ar, seu peito inteiro dói e ele não sente mais o pulsar do sangue.

[ ... você entende que está morrendo?... por que não o matou quando teve a chance?... foi uma grande estupidez... percebe agora?... eu não posso te perder... maldito seja... ]

Aterrissa com menos desenvoltura que gostaria, finge bem... mas fato é que logo, não haverá mais vida... Que porra de pensamento tinha sido aquele? Como uma lâmpada prestes a queimar, sua mente oscila, a vista preteando e voltando embaçada para captar o próximo golpe em seu rosto, derrubando-o contra as grades.
- Que erro, vadia... Sem volta, depois de morto... vamos nos divertir juntos... de novo... - a voz do veterano lhe chegava distorcida, e através do borrão de mundo que percebe não pode antecipar seus movimentos.

Puxa o ar com força, afogando-se. Um chute varre-lhe das grades ao chão.
Ele está no fim - veja por si mesmo: o uniforme escorre-lhe lentamente pela pele, dissociando-se dele... Sete está sendo tragado por algo branco e oco, repousante...

Não... apesar da mansidão da morte, há uma gana que não esmorece nele [ ... você não nasceu para isso, miserável... ]. O cheiro de seus dejetos sobe e farpas de lembranças passam através da dissolução de todos os sentidos, de todas emoções... A pupila já parada, fende-se - algo acontece. As caras de sátiro dos guardas que já curtiam os momentos seguintes se retorcem em espanto. As trevas parecem mover-se. Sobem como ondas pelo corpo branco de Sete, espantando o veterano, que não crê em tal resistência.

Aquela batalha já tinha durado mais que o previsto, Dois rosna, acompanhando o borrão pixe que não recobre a nudez do jovem. Sem ter pista do que viria, o assassino investe, chuta-o pelo estômago, erguendo-o num solavanco e gira, a perna desce com uma força absurda.
Partirá sua medula em dois!

Então... tudo preteia. O mais velho gorgoleja sangue, estático. Ainda vê o corpo incrivelmente alvo, coberto de hematomas e muito magro, quase que flutuando à sua frente, inefável e belo como uma pena. Os longos arpões recuam abrindo-se na carne transpassada. Dois abre-se em inomináveis flores escarlates e desaba como um boneco de pano rasgado.

Bestificado, apesar de jamais aparentar, o Comandante volta a si.

A cela enche-se de sons longínquos de passos e vozes aflitas. Sente-se leve. Como se não tivesse matéria. Um rosto de menina, lágrimas...
Tubos e verde... Um garoto branco com um sorriso trapaceiro... Um cristal dormente - uma prisão fora do tempo... Algo familiar e estranho na Lua... Vultos... Grilhões... Algo... como... uma profecia...

Sobre sete, o uniforme negro, aberto como duas grandes asas de penas perfurantes. Ou... como as mandíbulas sedentas da própria Noite, prontas para devorar seu próximo inimigo...

Que visão estupenda - é o que pensa o Comandante - que rapaz impressionante. Subestimara-o.

E quase perdera os dois...



[a Cannibal first meat] - 4

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

... o uivo...



Piscou os olhos... Estava coberto de suor e tremia de uma forma que mal conseguia esconder... Sobressaltado, esquadrinhou a cela escura - nada. Voltou-se para trás - pelas barras, só as trevas, engolindo qualquer horizonte, preteando sua visão.


Quanto tempo ficara apagado?... Conferiu o pulso inchado, agora levemente necrosado. Um pouco pior do que lembrava. Cuidou a câmera. O que estavam esperando? Teria se enganado?...

Fechou os olhos, juntou as mãos, devagar, pois a dor lhe dava náuseas. A testa molhada bateu contra os nós dos dedos. Se você o visse, neste instante, pensaria estar rezando. Fato que ele não conhecia o que era orar, a não ser por uma vaga definição programada em seu córtex durante sua gestação artificial. Um conceito para reconhecimento, não para prática... Sua mente estava se apagando - ele podia sentir, os neurônios mais e mais lentos, querendo dormir por mais e mais tempo, se perdendo, talvez...

A orelha direita balançou no ar parado - uma, duas, três vezes. Os olhos se apertaram. O coração bombeou mais rápido. Um som. Escutou com todas as células de seu corpo, em transe. Sim, travas abrindo. Sim, passos - quantos?! Atenção... Uma vertente fina de suor cruzou a têmpora, atraiu-se a um feixe de cabelos negros e deslizou numa curva muito aberta, antes de hesitar um pouco e engrossar e só então abandoná-lo. Quatro pares de pés. Conseguiu distingui-los, em um tempo maior do que levaria antes.

Sua nuca foi a primeira a retesar-se num estímulo elétrico, ferrenho. Os pulmões subnutridos e feridos, encheram-se num compasso mais ousado e seu primeiro expirar foi um bufar medonho - como um pitbull ao ter a trela solta na arena... Ergueu-se inteiro do assoalho de pedra imundo, a dor quis puxá-lo de volta e - por um segundo - tonteou e sentiu as pernas cambalearem, à deriva. Fechou o punho bom, focou a porta de sua prisão.

A boca do corredor cuspiu os vultos - primeiro, um guarda. Logo após, o Comandante - aquele semblante fechado e frio, como de alguém esculpido em gesso no momento de pisar em seus inimigos. Então... seguido pelo segundo guarda, ele... sim, eriçando seus pêlos e aquescendo seu sangue, ele... o outro... o veterano que o dominara... o responsável por sua humilhação - mas não por sua queda. Tivera o que merecera, assim pensava.

E agora, pagaria ao outro a passagem para o mesmo destino.

Encararam-se através das falhas entre as barras.
- Você está morto. - lhe rosnou o mais velho, seu número era claro no uniforme: 2.
- ... - um sorriso zombeteiro e um olhar de claro deboche responderam. O que pensara disso seu opositor?

O Comandante assentiu e a porta foi destravada, sem palavras ou meandros. Era assim. Num movimento rápido como o estalar de um chicote, Dois adiantou-se pela estreita fresta que era aberta - e estava sobre ele, antes que você pudesse piscar outra vez.

Quicou contra a parede oposta e suas costas latejaram de dor, a fisgada desceu pelo tecido de seu pulmão e cortou o fôlego. Memórias zumbiram em seus nervos, em suas sinapses, como tiros. O punho do outro ainda estava em riste, no ar - como proclamação de um ponto. Estava se exibindo...

Rilhou os dentes - antes que possa acompanhá-lo, veja! - num ziguezague contra as grades e num abrir de garras, Sete risca o ar. Golpe aparado. Novo. Defesa. Outro. Esquiva. Por quanto tempo seu cérebro ignoraria o latejar de seu pulso, o grito de seus órgãos moídos?

Uma máscara de guerra - assim é seu rosto, enquanto anula as sensações e continua em ataque. Não pode parar. Parar é morrer. Risca o outro - mas leve demais. O cheiro de seu carrasco lhe atiça, joga-se com mais fúria. E então... num flash, está imobilizado habilmente por ambos os punhos... Frente a frente com aquele que lhe arrancara a dignidade.
- Gostou de mim, porco? Se apaixonou?- rugiu num sussurro e, por um mero instante, o outro titubeou...

Gostaria de não contá-lo... Mas não posso calar...

A cara do outro resistiu e então cedeu, rasgando-se dos ossos e músculos profundos num som baixo e estranho, a cartilagem do nariz estalando e quebrando-se entre as mandíbulas rigidamente fechadas de Sete. Puxou o próprio pescoço num estirão súbito, arrancando a massa e mastigando-a em despeito.Um jorro quente e abundante de sangue batizou-lhe as feições endemoniadas, num brinde à vingança. Surpreso e afogado em sua hemorragia, o mais velho chuta-o para tomar distância. O grito rouco que lhe sobe é um rugido de fúria que abala os guardas.

Não há rounds, então, não há pausas - Sete gira o corpo no mesmo impulso que o arremessara e volta à toda carga devolvendo-lhe o chute na ferida aberta do rosto com seu peso multiplicado em muitas vezes. Mesmo para o veterano aquilo fôra devastador e ele tonteia... O novato prossegue emendando uma seqüência de diferentes chutes. No peito, nas pernas - Dois pende para frente - na cara, com o baque Dois é jogado sobre suas pernas de novo, nos intestinos - Dois bate de encontro às grades. O estrondo propaga-se pelo metal e anima os dois infelizes de farda que só observam.

Que seja bem entendido e por isso é dito: esta não é uma luta qualquer. Os seres que se enfrentam estão muito acima da potência de um guerreiro humano. São produtos de ponta do maior poder econômico neste Mundo: a Shinra Corp...


Ele sobrevivera anos a fio, primeiro sendo constantemente assediado pelo Número Um... Depois, enfrentando inúmeras missões. Ele era o Anjo da Morte. Pelas suas mãos inúmeros morreram. Executivos traidores da Companhia... Membros do alto escalão de outras nações... Líderes rebeldes de inúmeras facções... Sim. Dois era uma máquina de matar ajustada e experiente e só isso justificaria como ele poderia ainda bloquear-lhe o próximo golpe direto contra sua traquéia, apesar dos danos recebidos. O soco que parte de sua direita seria capaz de estourar um capacete - Sete recebe-o de raspão, seu cérebro descola-se e ele recua alguns passos zonzos. Seus pulmões arranham o ar, a doença é clara para quem ouve. Parado enquanto o cenário oscila em brancos enevoados e sombras, o mais jovem é arrebatado pela explosão da dor que ignorara e vomita contra sua mão. Escuta a risada do outro.

Ah... o olho amarelo está lendo as semanas que passou naquele poço do infermo nas linhas infectas do piso... a risada... aquela lembrança que lhe martelava os miolos tantas vezes cada dia... o suor lhe escorre pelo rosto e banha-lhe o uniforme negro como pixe...

Seu Comandante analisa o embate, gosta do que vê, aprova a sede de sangue que domina o novato apesar do estado lastimável a que está reduzido. Era hora mesmo do número Dois ter um rival à altura. E gela quando ouve o rugido que termina num uivo longo e profundo que sai da garganta rouca de Sete. Os guardas recuam, instintivamente, destravando as armas. As trevas parecem mais densas, parecem mais poderosas. Alguns jurariam que estavam sufocando até mesmo a platéia...

O som preenche a cela e extravasa pelos corredores, chegando ao primeiro nível do Quartel. Interrompe o golpe que estava chegando pelas suas costas arqueadas. E essa abertura é varrida pelas unhas em gancho de Sete. O uniforme do outro abre-se e afloram-lhe as vísceras e o segundo golpe, de canhota, vem debaixo e engata a mandíbula em três perfurações, descrevendo um arco no ar onde o corpo musculoso e ferido de Dois levita antes de ser cravado contra o chão num craquelar de ossos.

Gorgolejar de sangue e impropérios abafados por dentes soltos, um tentar mover-se - frustrado pela queda maciça do corpo de Sete, muito mais leve que antes - e a sensação dos avantajados caninos do jovem abarcando seu pescoço pela coluna. Um átimo perdido, suspenso em todas as respirações.



[a Cannibal first meat-3: editado]

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

... lições no limiar...



Estava sobrevivendo da forma mais vil... Entre os dentes, os pequenos ossos quebraram, e a garganta saciou-se com o sangue morno que não apagava a sede tremenda... os pêlos faziam cócegas em seus lábios rachados, moídos. Ao menos, tirava o gosto de urina que impregnava sua língua...


Terminou a refeição... Exigiu água, num berro de fera, rouco e poderoso, mas as câmeras de vigilância nada lhe responderam. E ela não veio, outra vez - nunca viera. Sequer alguém desceu para rir... Como sairia dali se ninguém viesse?... Sua testa rolou de uma grade a outra e os olhos piscaram, lentos, entregues a mesma seqüência de memórias... Quantas vezes ele relembrara tudo?... Não sei te assegurar, mas creio que milhares...

A dor não importunava mais. Acostumara-se a ela. Em tantas partes diferentes, de tantas formas diferentes: aguda. Quente. Pulsante. Como uma pressão. Como um serrar. Como um inchaço prestes a explodir. Asfixiante. Nauseante... Passara a ser parte dele, mais um sentido de si mesmo...

Abrira-se com as garras para tentar alinhar os ossos do pulso quebrado, dias atrás... Deixara seu uniforme invadir seus músculos para segurar os fragmentos no lugar... A ferida estava inchada, infecta e pontilhada daqueles cabos negros, que transpassavam-lhe pele e carne... Atado feito um marionete...

A febre o levava a planícies distantes... Sonhava em voar - um corvo, que comeria os olhos daquele desgraçado... Outras vezes, via-se em meio a muita neve, enchia com ela a boca, sentia ela limpar o corpo, e seu frio era tão maravilhoso... corria afundando naquele branco sem fim... - um lobo, que devoraria a todos... A febre era seu sono mais profundo e mais doce...

Tremeu a boca de leve nos calafrios, enquanto assava por dentro, e, como um clarão que se torna muito nítido - o pensamento condensou-se numa idéia. E aquilo avolumou-se atrás de suas retinas, tanto e tanto que seus olhos se arregalaram e as pupilas fenderam-se estreitas. Respirou devagar. Clareou sua mente. Dominou as batidas de seu coração. A face enrigesceu-se naquela máscara fria. Um sorriso muito secreto repuxou os lábios arroxeados, só um pouco.

Mirou a lente da câmera. Ergueu-se. Teve de juntar tudo que podia do controle de sua mente para repuxar o corpo à posição de pé, sem que balançasse, sem que se encurvasse - permaneceu ereto e olhou direto através daquele vidro, daquele diafragma. Como uma punhalada. Deu um instante a si mesmo. Precisava que sua garganta não lhe traísse. Tinha que fazer bem-feito, pois estava apostando, talvez, sua última cartada... Encarou quem quer que fôsse que estivesse sentado, numa bela sala, limpa, arejada, confortável em seu assento macio, simplesmente vendo ele se foder, dia a dia, naquela pocilga...

- Aquele filho da puta que me quebrou... não passa de um merdinha!... erraram se acreditaram que ele é melhor que eu!... o covarde se aproveitou por uma sorte... não conseguiria tocar um dedo em mim, aqui, agora!... não teria esse culhão!... não teria essa vantagem duas vezes!... que viesse!... que trouxesse todo mundo prá ver o que eu faria com ele... cachorro que não serve nem prá acabar com o que começou!... não estou morto! ouviu?!...

Puxou fundo um rugido que abalou o silêncio escuro e pesado daquele corredor.

Apontou o dedo na direção de seu espectador, como se o marcasse.

Pronto.

Os dados estavam lançados...


[A Cannibal first meat] - 2

domingo, 14 de dezembro de 2008

... por baixo...



Muito escuro... As pupilas finas se ajustaram, tomaram quase toda a frente do globo ocular, distinguindo as barras que o prendiam ali... Cheiro forte, nauseante... ratos mortos... fezes e urina... - suas fezes e urina.


Fome... Sede... Quantos dias haviam se passado desde que fôra enclausurado ali?... Nem um som... Iriam abandoná-lo ali? Ele veria a morte se aproximando, lentamente, cada vez com mais certeza, até que secasse tanto que seu coração não mais suportasse?...

Mal conseguia se mover... Seus músculos estavam pesados... Pressão baixa... Qual o sentido de tudo isso? Seus olhos se moveram, como se tentasse ler algo no chão ou no ar... Era só porque ele havia baixado a guarda... Um predador não deve depender de mais ninguém... Um predador não tem quem o defenda... Ele fôra ludibriado...

Fazia somente um mês que entrara em treinamento... Talvez mais, agora... E aqui estava, preso e humilhado... humilhado até seu último bastião...

Tocou com repugnância nos quadris magros, cobertos de hematomas profundos, o grito subiu, mas morreu na garganta fechada e nos dentes cerrados... Não o ouviriam gritar mais... Tocou de leve a testa contra o ferro gelado com cheiro de suor e sujeira... Não fôra o primeiro a estar naquele cubículo... Ar parado... Mofo... Fechou os olhos, aturdido e amedrontado... sim... eles o haviam derrotado... ele rolara até o último degrau da hierarquia... esse era seu destino, assim ele pretendia terminar?... ... ... não!... E seu sangue voltou a ferver, o cérebro disparou.

Sob as pálpebras fechadas, o barulho da porta se abrindo atrás dele... Os passos... Um ritmo estranho, sim cada um tinha o seu jeito distinto... Quem seria?... Seu corpo estava exausto... Então, ficou ouvindo o outro se aproximar e fingindo que dormia... Se... se esse que vinha quisesse lutar... teria que se erguer e ir com tudo...

O punho se fechou... Fôra seu primeiro engano: gastar tantas energias simplesmente para superar o treinamento aquele dia... Deveria ter feito só o estritamente necessário... Sem malabarismos... Sem tanto show-off, sem a perfeição de 100% targets cleared e 100% goals accomplished... Não repetiria mais esse erro...

Franziu o rosto branco em muitas pregas ao longo do nariz bonito, quebrado... Queria que a sua mente congelasse ali e voltasse... Mas... Ela continuou analisando... As garras entraram em sua palma, e ele percorreu de novo aquele caminho... O veterano... jamais sentira aquele cheiro antes... Saltou a tempo de evitar o primeiro golpe... A cama onde dormira, rachada ao meio... Teria partido sua coluna... Encarou-o por um milésimo de segundo - desviou-se por tão pouco que sentiu o tecido do uniforme dele roçar-lhe a maçã do rosto. Uma metralhadora de chutes, socos, cotoveladas, uma seqüência tão firme e coesa de golpes que mal conseguia respirar ao esquivar-se sem parar, sem parar - não havia tempo para contratacar, nem brechas, mal tinha espaço para mover-se...

Ali mesmo, revendo, arfava... O suor lhe escorreu pela têmpora ossuda e colou ali uma mecha muito negra... Deveria tê-lo atacado primeiro... Esse foi seu segundo erro... Podia recontar a dor, a sensação do primeiro assalto certeiro - nas costelas... a ardência em seu pulmão esquerdo não era bom sinal, ficou sem fôlego, mas mal teve tempo - o próximo foi na cara, em cheio... tonteou e viu tudo borrado, espirrou sangue pelo nariz e sentiu-o inundar sua boca também... Num impulso de adrenalina, reagiu e o tocou...

Uma só vez... Riscou-lhe a mandíbula com as garras... a carne e a pele se abriram em carmesim e balançaram soltas... Tentara abrir-lhe a jugular, mas errara feio com a velocidade do outro... As gotas de sangue do outro, dançando no ar entre eles... Milésimos... Então puxou a adaga do coldre - não a tempo... Escutou o estralo baixo dos seus ossos quebrando no pulso e gritou... Lembraria sempre aquele olhar... Aquela lascívia com que foi encarado - o deleite de sua confissão de dor, de estar subjugado... Foi como pedir-lhe... Esse... foi seu terceiro grande erro...

Então a sucessão de sua queda... As batidas inclementes de sua cabeça contra aquela parede, os dentes frouxos, socados, de novo, de novo, e o fedor dele quando finalmente deixou o uniforme recuar e o cheiro de seu suor, de seu tesão pestearam o ar... A tortura de não ter mais o controle... de assistir... a si mesmo... A desonra lascinante... Escutar-lhe resfolegar e rir-se dele com palavras chulas, como se fôssem íntimos... como se ele desejasse... Fizera questão de berrar seu êxtase para anunciar aquilo aos quatro ventos... E foi logo... outros chegaram... Logo... o veterano cansaria... É... mas haviam ainda outros para tomarem seu posto...

Revirou-se contra as grades, febril de ódio... E depois de tudo aquilo... ... ... Quando conseguiu se erguer... sozinho já... o que fez?... ... ... Foi procurar o Comandante... Ele sempre impunha ordem... E ele era o único que poderia autorizá-lo a ser medicado... Seu sangue coloriu o piso, como Joãozinho deixava migalhas de sua casa por todo o caminho na floresta... Chegou em sua sala, sabe-se Deus como, e sequer seu traje conseguia tapar-lhe a vergonha de seu corpo ofendido e quebrado, quase nu, de um branco chamativo demais. Os guardas se acotevalavam e riam, diziam chacotas muito baixo, pensando que ele jamais ouviria...

"Sete, você tem a estupidez de se apresentar assim ao seu Comandante?" - o homem dissera-lhe, erguendo contra ele seu cenho frio e enviezado - "... Já deveria saber que um Cannibal tem que estar sempre por cima, ao menos aparentar ser invencível, intocável... E você, soldado... está um lixo... Você não me inspira nenhum respeito... Você parece um civil pronto a ser abatido... Você será tratado como merece... Isso eu lhe garantirei, sempre..."


O último dos seus erros... E aqui estava... A ordem fôra rápida e curta... E mais rápida foi sua descida a este limbo onde o jogaram... Nada de água ou comida... Luz... Sem visitas... Jogado aqui para apodrecer... Ele já sabia, não?, que Cannibals morriam às pencas no treinamento...

Bem... era a sua vez... Ou o que?

[A Cannibal first meat]

... pequenas jóias minhas...

Estranho... Acordar de madrugada, completamente só... Andar pelo apartamento e não escutar o teu ressonar e ir ao teu encontro, ver se precisa de um lençol ou se está suando... se não deixou cair o travesseiro no chão, ou o teu au-au do abraço... Não poder te olhar dormir e retraçar toda a nossa história, desde que tu estavas escondido do mundo, aqui dentro... Não poder mexer um pouco em ti, sentir a seda macia e leve dos teus cabelos, filho, ou a pele rosa dos teus pés, da mão pequena...

Olho prá fora, escutando os pássaros acordarem, cantando, piando, escuto eles conversarem entre si, atentos, escuto seus ninhegos... O Sol de alguma forma está vindo, circunscrevendo o horizonte abaixo de nós, emergindo... as cores com que abre o céu enchem minhas retinas... e começo a ouvir os sons humanos... o metrô, iniciando suas viagens... um ou dois carros na rua roncando motores... E aqui dentro, só o teclar dos meus dedos, tentando registrar o que é impossível...

As palavras... como ornamentos muito sutis, trabalhados à exaustão por milênios... o que elas são a não ser filigranas que nos envolvem e tentam nos ligar ou nos afastar dos outros?... mas nada além disto... que significado teriam em si mesmas?... Elas precisam de alguém que as vista... entende? alguém que seja com elas... por que?... creio que só podem enfeitar o que já é, do contrário, estão vazias... quebram... revelam algo oco e isso é feio - mentir, fingir...

E isso também demonstra que só as uso porque quero que isso que sou e sinto pareçam belos... pareçam interessantes para que você me escute... me leia... para que rastreie tantas coisas que confesso diretamente ao centro, para que ache a fonte... Porque tudo que realmente importa, já está sentido... já sou... E penso em você, que caminha ao meu lado... e a quem amo tanto... Você pode ver isso nos meus olhos, sem que eu despeje uma só palavra?... Você pode ler, sem palavras, tudo que quero de bom para ti, e toda minha saudade, e meu carinho por ti, apenas em cada gesto meu, algo pequeno, algo tímido e velado, você consegue sentir?...

Sozinha aqui penso em tantas coisas e vejo nuvens de um rosa brilhante e um violeta escuro, de bruma, cores que irão se desfazer, sem registro, que irão passar, sem deixar outro rastro que não seja sua efêmera visão em meus olhos insones...

Ah... a posteridade das palavras...