sábado, 18 de julho de 2009

... can you fix me?...

From the lying mirror to the movement of stars
Everybody's looking for who they are
Those who know don't have the words to tell
And the ones with the words don't know too well

Could be the famine
Could be the feast
Could be the pusher
Could be the priest
Always ourselves we love the least
That's the burden of the angel/beast

Birds of paradise -- birds of prey
Here tomorrow, gone today
Cross my forehead, cross my palm
Don't cross me or I'll do you harm

(...)

We go crying, we come laughing
Never understand the time we're passing
Kill for money, die for love
Whatever was God thinking of?



[Burden of the Angel Beast, by Bruce Cockburn]

Cheiro de rosas, couro novo e maquiagem. O vulto curvelíneo dela o fisgava, dissipando-se e reafirmando-se num ritmo delirante de acordo com o esvoaçar das sedas ao vento. Passou a língua contra os caninos. Tinha um sorriso ruim, de lobo. Ocultou-o num semblante vazio e engoliu. Das duas passadas, só se ouvia a dela estralando a areia sob o salto.

Local: uma ramificação dos laboratórios pertencentes a ShinraCorp. Um amontoado de pavilhões, tubulações e gente armada. Mas ela passeava ali como se estivesse num shopping center... E ele... seguia.

Seu cão. A tatuagem com código de barras, letras e números contrastava de forma surreal sobre a pele dele, branca, de um tom caiado como a porcelana em que ela bebia seu chá importado com creme e limão. Os dois vultos se moviam na mesma sincronia - peixes do mesmo cardume.

Subitamente a jovem morena travou suas pernas longas. O olhar dele saltou por todos os lados e os tímpanos se afinaram, aumentando a sensibilidade de sua audição superumana. Sob seu terno com aparência de bem cortado - mais um disfarce daquele ente negro e disforme que lhe era irmão - seus dedos roçaram de leve no coldre. O coração dela parecia em sofrimento, lia isso na forma como o sangue borbulhava nas artérias de sua missão. Mas não achava nada nos arredores que justificasse - então, o que ela sabia que ele não?

Ajoelhou-se, suave, um choro preso, o rosto voltado para o chão e seu vestido abriu-se como uma flor nascente. Os braços dele pinicaram, tensionaram-se. Parecia que exigiam que a abraçasse. Era uma idéia estúpida e completamente irreal, fora de sua patente e de seu decoro como militar: - Srta Lunia, posso chamar seu carro?
- Tem regenerador com você? - pediu-lhe numa voz trêmula e outra vez ele teve uma injeção de adrenalina.
- Está ferida?

Nas mãos dela, um punhado de penas. Lágrimas formando contas num colar cristalino contornando as feições.
- Por favor?...

O frasco rebrilhou, artificial e extravagante a luz do sol coruscante. A fórmula enriquecida lançou uma luz violeta contra as duas mãos que se tocaram num instante fugaz. O pequeno olho mal mantinha-se aberto, pálpebras pesavam. Uma figura retorcida, cujo vértice da asa, pobremente intacto, dobrava-se apontando ao azul. Era como se a pequena ave erguesse dedos culpando o Céu.

Achara, por uma absurda probablilidade, um anjo?...




[The Slave with a Key - parte 7]

terça-feira, 14 de julho de 2009

... coelhinhos rosa...



Imagine all the people
living life in peace
uhu-uhuuu...

[Imagine, by John Lennon]


Tem coelhinhos rosas no meu papel higiênico... Semi-acordada, fiquei olhando aquilo e finalmente me perguntei : porquê? É só um pedaço de celulose para sujar e atirar na lixeira...

Mas eu sempre o escolho na prateleira do mercado...

Sempre gostei de coisas bobinhas... E agora, procuro-as ainda mais... Quero cercar meu filho de carinho, de cuidado e alegria, mesmo que isso fique restrito a pequenos gestos, tolices... Penso agora, com um tanto de raiva pela impotência e angústia, que gostaria mesmo é de pintar sobre esse Mundo. Refazer tudo... de modo que cada coisa, cada detalhe fôsse tão bom quanto um sonho meigo...

Queria poder oferecer a ele um Mundo diferente - um Mundo encantado, cheio de maravilhas, onde pessoas são realmente puras e heróicas, e onde os vilões são facilmente identificados e tem sempre o que merecem... Onde crianças podem brincar. Onde todos podem viver felizes para sempre...

Gostaria de estar nessa realidade, em que só pela minha vontade, pudesse arrancar do peito dos que amo tudo o que lhes aflige e os deturpa... Que eles pudessem sorrir mais. Que fôsse claro como uma estrela-guia o caminho para que atingissem seus sonhos mais brilhantes...

Um Mundo que fôsse justo e digno... Limpo... Belo... Cheio de música, árvores e céu ensolarado... Pandorgas... Dentes de leão no vento... Gatos pretos nos muros... Príncipes e princesas... Um lar...

Eu aqui, no frio dessa madrugada, queria te dizer que torço por ti, e que estou contigo... mesmo não podendo simplesmente te dizer o que fazer, porque nem sequer eu tenho certeza, nem podendo iluminar aquilo que te tem sombreado...

Seria tão bom, com o som da minha voz, espantar teus fantasmas...

domingo, 5 de julho de 2009

... é depois que perdemos que...


Fôra uma semana tensa de rastreamento e infiltração cuidadosa até chegar ao líder rebelde e o centro de seu núcleo terrorista. Suas armas eram básicas, mas haviam se precavido fusionando a elas o poder das materias. Gostara do desafio, terminando a chacina com satisfação. Coletara paralelamente um bom número de objetos resgatando-os para as mãos da poderosa ShinRa Corp.

Neste instante, porém, sentia-se insuportavelmente entediado. Os olhos se prendiam ao teto branco, onde cores e luzes brincavam, refletidas do monitor esquizofrênico, que lhe dava as últimas notícias, entre elas o seu sucesso. Entre suas coxas, a nova criada pessoal parecia acreditar que o arrasava de prazer, com sua felação molhada e barulhenta.

Jamais pensara antes que voltar para sua gaiola de concreto e aço poderia vir a ser ainda pior... A cada vez que era chamado, tinha mais vontade de que sua missão o tragasse por um período infinito de tempo. O mais longo possível.

A música tocando era a mesma. O ambiente, igual. A comida, esta era diferente - mas tudo bem, ele se acostumara. Havia aquela bela garota, que não parecia em nada com sua primeira. Era obediente, como a outra jamais aprendera a ser. E calada, a não ser no sexo, como agora, quando disparava obscenidades. Sexo, sim, havia muito disso...

Impaciente, jogou-a de lado e levantou-se. Focou-a por um átimo, e lá estava aquela feição submissa e profissional. Nenhuma indignação. Sem questioná-lo. Ou odiá-lo.

Ao passar pelas prateleiras, suspendeu o passo, sentindo uma fisgada incomum no peito. Virou-se, admirando com curiosidade mórbida o pequeno objeto que o ferira.

Uma frágil estátua de gueixa retribuia seu olhar com insolente doçura.

E ele quase sentiu-se em casa...


[The Slave with a Key - parte 6]

... minha fera [amada]...



It's a long walk back to reality,
She puts another brick in the wall of shame she made so long ago
Trying to figure out where things went wrong
Searching through all the lies she told
Somehow she missed out on all the things that she needed most
Days spent wondering why this
Life is so cold and nothing ever changes

Screaming for attention,
Watch the sun steal yesterday
Hiding all emotion far away

Trying to find his self confidence,
Another broken heart behind the painless smile that he shows
Reminded that yesterday is so far gone
And tomorrow is still a miracle
Somehow he missed out on all the things he needed
most days spent wondering why this life is so cruel and
Nothing ever changes


[Waiting for Yesterday, by 12 Stones]


Sua música favorita ventava pelo alojamento sem janelas, como um baú. Alta e espirituosa - como deviam ser seus movimentos na batalha. O cheiro pungente de especiarias, carne e frutas recém-cortadas lhe abrira o apetite. Sentado em frente à mesa baixa, fartava-se, animado com a refeição quente - tanto como qualquer simples animal saciando uma necessidade básica. Comia feito um miserável, sem modos, os olhos quase se fechando a cada bocada.

Ela sorria em segredo e enchia uma vez mais seu copo com saquê amornado. Tinha orgulho por jamais tê-lo visto bêbado. Fitou-o de cima a baixo: era um guerreiro, rude, forte e determinado. Talvez ele jamais fôsse entender o que tentava lhe mostrar. Mas era perigoso dizer-lhe explicitamente. Há pouco não havia lhe testado? Algo o teria impedido de cortá-la em dois se ela tivesse ousado lhe dizer "sim"?

Ao mesmo tempo, um lado dela queria crer em outras coisas... Seria só uma esperança? Fruto de alguma fantasia tola, restante de sua tenra infância, das belas histórias que escutara?... Essa dúvida que a cutucava teria mesmo fundamento?...

As pregas da roupa dele rearrumaram-se em novos padrões quando subitamente ergueu-se. Um farfalhar como de asas. Congelada pela agilidade dos movimentos dele, foi seqüestrada sem opor-se. Enrolada em suas mangas longas e lustrosas, embalada com a suavidade de um anjo. Acolheu-a em seu colo, descendo ao tatame como se fôsse nuvem e não homem. Assim surpreendida e maravilhada, deixou-se solta, semi-reclinada sobre seu braço direito, uma boneca perfeita e palpitante. E seu dono encarou-a.

Tinha calafrios sempre que os olhos dele a penetravam tanto. Suas feições eram ferozes demais, em especial os olhos, tão parecidos com os de uma fera: aquelas órbitas escuras, as íris brilhantes demais, luas fluorescentes, e as pupilas, fendidas...

... Akuma!... era a palavra que vinha a sua mente, num tremor, todas as vezes.

Os dedos dele, como garras de falcão, longos e fortes, as unhas como esporas longas, foices, percorreram o rosto quase plano dela. As bordas de cada olho, amendoado e pequeno. Depois vagaram lentamente entre os fios negros dos cabelos lisos dela, dedilhando alguma canção proibida. Parecia hipnotizado. Não era a primeira vez que fazia isso...

Sim... como entender essa contradição? O uniforme negro e assustador - ele não o transformara neste quimono? Por que?... E com que alma tinha ele rebordado a veste com tanta maestria, com uma delicadeza de formas e cores que enuviava sua mente sugestionável? As flores no tecido sedoso... a neve que se derrete... os passarinhos de olhos vivos e penas coloridas... O que poderia mover um monstro como aquele, criado para assassinar sob ordens, a se vestir assim?... A tocá-la com tanta reverência?... A colecionar aqueles vinis somente por seu som, em melodias tão dramáticas, acordes que gritavam com emoção?...

Rolou os olhos marejados para reencontrar os dele. Ele estreitou as sobrancelhas de pêlos arrepiados. Enigmas. Esconderia ele pensamentos que não missões e prazeres bestiais? Seria capaz de sentir e apreciar?
- Me sirva. - ordenou-a.



[The Slave with a Key - parte 5]

sábado, 16 de maio de 2009

... armaduras que jamais caem, falhas nunca defendidas...



There is nowhere left to hide
There is nothing to be done
No people to be saved
No pets we've never named
40 miles from the sun

As darkness craves the mind
We come undone without our pride
No time on the earth to come
All the pleasures just begun
40 miles from the sun

In our coats beneath the layers
Wash my skin of all the hate
We should sleep late
Everything just kind of grates
40 miles from the sun
40 miles from the sun
40 miles from the sun

I need to lose to make it right
I'll confront the stars tonight
I will babble I will bite
You will never know how much you shine
40 miles from the sun
40 miles from the sun
40 miles from the sun
.


[40 Miles from the Sun, by Bush]


Uma flor de pétalas de seda abria-se sob ele. Descansava, quase desmaiado, sobre ela. Duas figuras recortadas contra o chão, três cores em degradê, do branco profundo ao mogno escuro das tábuas largas. A cor de canela quente dos braços delgados e pernas curvelíneas e magras dela, raios de uma mandala. O rosto ainda caiado de pó-de-arroz, fitando o vazio com olhos oblíquos e escuros. O cabelo negro de ambos em ondas e brilhos, misturando-se em curvas como dois rios. A brancura inumana dos músculos dele recortando das sombras sua forma no primeiro plano. Salpicos de tecidos rolando suaves na brisa quente bafejada pelo climatizador. Flores de tecido e resina em pentes e palitos decorativos, retirados um a um, um grande jasmin repousando recostado ao punho grande demais, sujo do sépia imundo de coágulos. Os olhos fechados da fera que dormita, a face acolhida entre os seios pequenos e o queixo pontudo e frágil dela. Armas repousando em cinturões ainda enlaçados no quadril despido, transpassados a um torso já nu, enrolados a uma perna dobrada displicentemente.

Detalhes... Passa-se mais de uma hora sem que nada se desfaça. Ela trai-se: fita-o, de repente, atenta além do que sua compostura lhe permitiria. Emoções trovejam pelo rosto suave. A palma macia recolhe-se, ergue-se como uma serpente e assim desliza no ar até tocá-lo, muito mansa, com medo, no omoplata largo e saliente.

Ele imediatamente enrigesce o corpo e rosna, a garra esquerda já ao redor do pescoço fino da escrava, a mão direita segurando a adaga que a pinicava na altura dos rins. Os dedos dela tremem, depois se forçam contra o relevo abrupto do trapézio. Um milésimo se passa, ou mais, enquanto ele acorda e sustenta um olhar predatório contra ela, como se não a reconhecesse.
- Está cansado e o banho vai esfriar.
- as palavras fortes dão a ela um alívio, como sempre saem duras e impessoais ocultando o borbulhar de seu pânico: pela forma resoluta com que as pronunciava poderiam até ser tomadas por uma ordem.

Desarma-se e volta a olhá-la com seu jeito costumeiro: levemente feroz e perigosamente entediado. Toma a liberdade de mordê-la, farejar-lhe os ombros e lamber-lhe o gosto ambarado de seu suor misturado aos dos óleos perfumados com que se envolvia. Ela geme baixinho e suas mãos geladas tecem nele frases que ela nunca irá lhe confessar.

O ato recomeça, mas diferente - doce. Ainda assim há um limite claro entre eles, que não esmorece nem quando ele lhe ronrona veludosamente por mais, mais! e só o que ela consegue pensar é "Que mais é esse? Como decifrar o que uma criatura como você quer além do que estou te dando???"

E assim acabam entrelaçados sobre um divã, o couro negro reclamando abaixo deles, a cada mudança de peso. Veja, as bocas nunca se encontram. Nos olhos dela nunca submissão ou carinho. Nos dele só a reafirmação da posse, um tom de desejo ou de prazer. Quando a respiração se acalma, ela senta-se sobre ele e revista-lhe o peito marcado de hematomas grotescos.
- Onde estão os frascos com regenerador?
- Deixe assim.

Desde quando ele se permitia ficar debilitado? A resposta a surpreende. E aquele relance de preocupação que ele capta talvez seja o motivo para que ele avance sobre sua guarda aberta, quebrando protocolos implícitos entre eles:
- Você morreria por mim?
- Não.

Um leve crispar de nariz e cerrar de sobrancelhas. O soslaio de um canino enquanto ele bufava algo com desprezo. Então o velho olhar baço, corriqueiro:
- Se você pudesse, me mataria?
- Para que?
- Para ter outra vida.

O silêncio acumulou-se entre eles. A voz dela estocou-lhe:
- Gostaria de ser livre.
- Me mataria?
- Não.

Remexeu-se, incomodado com a seqüência de respostas que não lhe soava coerente. Talvez faltasse lógica. Talvez desconfiasse que estava faltando honestidade. Talvez estivesse simplesmente decepcionado.
- Por que não?
- Adiantaria?
- Se sua liberdade dependesse disso...
- Não conseguiria.
- Mas tentaria?
- Isso é mórbido.

Segurou-lhe com firmeza nos braços e a encarou. Aqueles olhos de fera, amarelos.
- Tentaria?
- Você jamais seria vencido por mim... eu não tenho nenhuma perícia nisso...
- Se soubesse que iria conseguir, tentaria?
- Por um milagre?
- Pelo que fôsse - encurtou, perdendo a paciência - se tivesse certeza de que me mataria, faria?

Ela mergulhou um tempo naqueles olhos claros demais, depois arrepiou-se, tentou descer dali, mas ele continuou mantendo-a a sua mercê. Os olhos puxados perderam-se entre as tábuas do chão. O lábio tremeu um pouco.
- Não.
- Por que?
- O que quer com isso?
- Só responda.
- Não sou suja assim.
- Nem que fôsse conseguir o que mais sonha? - "Suja" a palavra o chicoteava.
- Me tornar uma assassina não é uma opção.

Era assim que ela o via?...
Deixou-a ir, enquanto o núcleo de seu ser enrolava-se em torno dessa pergunta. E das perguntas que nasciam dessa. Não escutou os passos macios dela. Mas despertou quando ouviu-a chamá-lo. Andou devagar, como um tigre entediado, pensando se ela acreditava que ele a mataria realmente. Por que não? Não era o que ele fazia aos humanos? Se ela tentasse algo contra ele... mesmo sem ordens... ele não revidaria?

As pegadas dela evanesciam em vapor. No fim da trilha, sua concubina o aguardava, de pé sobre os degraus de taboão. A banheira rescendia a cheiros alcalinos e perfumes artificiais.
Aproximou-se e notou que ela já retomara seu controle impecável da situação. Retirou os coldres, com dedos lentos em cada presilha, enquanto sua atenção se movia aos gestos dela, despindo-lhe o uniforme.

Retirá-lo parecia dar a ela uma grande satisfação. Por algum estranho raciocínio, ela odiava aquela coisa. Ele fingia ser contra a sua vontade. Mas o comando era seu. E o tecido, que tomava uma textura emborrachada, amontoava-se negro aos seus pés e então, escorria, tornava-se uma sombra contra o chão. Acompanhou-o quando o assassino subiu os degraus e entrou na água morna. A escrava cuidou aquilo com asco, arrepiada, antes de sentar-se na borda e puxar-lhe pelos ombros contra suas pernas.

Encaixou a nuca contra as coxas dela seguindo o ritual. Fechou os olhos amarelos permitindo-se flutuar num mundo de mortos, ordens, rixas e falas dissimuladas. Mesmo a jovem cor de canela diluindo-se em massagens gentis, sabia que era uma questão de obrigação imposta. Aquela doçura era também farsa. Mas ela era sua. Sempre seria, mesmo que o odiando.

Ilusões... erros de julgamento...


[The Slave with a Key - parte 4]

... crueldades pequenas e grandes...


Relanceou o olhar sóbrio e descrente pela vastidão do seu loft, espaçoso e luzente, com tudo que ele conquistava e escolhia no catálogo. O suave aroma da madeira no taboão do revestimento. Flores em arranjos. E aquele perfume do corpo dela... rescendendo de cada objeto...

Estava particularmente indisposto e inquieto. De volta à sua gaiola dourada. Cheio de perguntas as quais ninguém respondera. Mas sobre as quais fôra questionado.

O farfalhar de seda brincou no labirinto de seu ouvido e a orelha moveu-se, triangulando a origem do som, batendo-se de leve com a insistência do ruído macio. Fixou o olhar exatamente no ponto de que ela emergeria, por trás da estante apilhada de vinis e bonecas de gueixa. Como o Sol ao nascer, foi camada a camada de cor cintilante e viva que sua concubina se revelou. Cuidou-lhe os traços conhecidos, sob a maquiagem ostensiva e icônica. Então ela abriu um leque, milímetro a milímetro, e o fez dançar em harmonia com seus próprios movimentos, num malabarismo que o hipnotizava-o de pé, no primeiro passo ainda.

A peça de tecido dourado e bordados negros parecia um animal adestrado brincando entre os dedos pequenos dela, contrastando em fulgor com a brancura do pó-de-arroz. Os requintados desenhos se borravam nos rodopios. Sim... voava como um pássaro... mas não ia muito longe, pousava de novo na ponta daquelas unhas... subia e caía... sem conseguir chegar a lugar algum... um pássaro... aleijado...

Só percebeu sua tensão quando ela já tinha lhe escalado todas as vértebras e inclinado seu pescoço para frente e seus ombros tinham recuado preparando a reação elástica do bote. E quando ele chegou sobre a garota, o fez de tal forma que alguém poderia pensar que ele entrara na coreografia - exceto ela mesma.

Mas não teve tempo de reagir. Sequer teve um instante de pausa, e quando ela abafou seu grito de espanto, ele já tinha terminado o ataque. Viu quando ele apanhou o leque no ar e o esmagou na garra fechada em punho ao tocar o chão sem som. Os restos de osso e laca nevaram sobre seus cabelos e seu rosto atônito. Ele a encarou enquanto ela segurava a respiração e se controlava para enfrentá-lo. Rasgou a bela barbatana de cetim teatralmente, como para marcá-la, lentamente, efusivamente, e pedaços entrecortados de uma cena de família, rostos alegres, crianças correndo, andorinhas, árvores nodosas e torcidas como bonsais, rolos de nuvens, lamparinas, e um brumoso vale de cumes verdes, adejaram ao redor deles. E morreram entre as botas empoeiradas e os pés pequenos e descalços, que quase se tocavam - pareciam mesmo, agora, restos mortais de uma ave desmembrada...
- Podia ter dito simplesmente que não gostou. - ela sussurrou a ele no seu tom rotineiro: monocórdico, de um respeito afrontoso e uma serviçalidade sarcástica - Vou limpá-lo para seu banho, a banheira já está cheia e a água na temperatura que prefere.

Agarrou-lhe o pulso assim que ela lhe tocou para desnudá-lo. Puxou-a contra si, seco, e aquelas pequenas maldades lhe aguçavam os caninos. Aquilo era um ato de beligerância entre eles: obrigá-la a aturar-lhe o corpo ainda coberto das suas vítimas... Como se a obrigasse a compartilhar o mesmo destino dele...
- Seja digno. Lave-se primeiro. - a escrava protestava, sem altear a voz, num cicio sem ódio ou paixão aparentes.

Com aquela face que parecia uma máscara inexpressiva, ele usou sua força, sem feri-la, simplesmente envergando-a. Inclinou-a sob ele desfazendo parte do uniforme numa poça.
- Sou um monstro? - perguntou-lhe entre dentes, e apesar da fúria que lia em seus olhos amarelos, a pequena mulher sussurra-lhe tão baixo, que o áudio ficou ininteligível na gravação:
- Sabe a resposta. E você se orgulha. Gosta de ser o que é: olhe o que faz.
- Se sou uma fera... você é minha presa... Então cale a boca. - rosnou para ela inclinando seus lábios junto ao pescoço fino, cor de canela.

Torceu-a e teve dela suas carnes profundas, com gana, entre arfares de raiva e um prazer que só o redimia pela metade... Havia um nó na garganta que apertava e apertava...

E a esperança que ele jamais se dera conta, ofuscava-se em sua alma de asas cortadas.


[The Slave with a Key - parte 3]

... o coldre perfeito...


Tudo era metálico e assepticamente ordenado. Uma luz apática, fluorescente, deixava todas as coisas cítricas. Uma ou outra lâmpada piscava ao longo do corredor de portas numeradas e códigos de barras. As solas das botas dos outros marcavam a cadência dos passos repetitivamente, e enojavam-lhe. A borracha guinchava contra a lâmina reluzente do piso: tinha ânsias de rasgá-los.

O lugar obrigava-o a lembrar-se sem cessar de que era um Projeto da ShinRa. Uma arma deles. E estava sendo guardado no depósito. Tocou na chave que pendia em sua garganta e puxou-a de lá por sobre a cabeça. A corrente cantou para ele. Um som bonito. O cartão metálico exibiu um flash nos veios de cobre do chip e escorregou para dentro da fechadura e para fora com um BIP musical e um estalido de travas, rotineiro. A porta de contenção abriu-se com um bufar de pistões pneumáticos. Sabia que tinham anotado coisas sobre sua última missão. Seu comportamento...

Hesitou em entrar. Ali era onde o trancafiavam no vazio entre as missões. Talvez um dia não o deixassem sair. Ouviu às suas costas um riso furtivo. Mirou sobre o ombro. Todos o cuidavam, aqueles vários rostos humanos, sem nome, sem nenhum tipo de contato com ele que não fôsse esse protocolo. Silêncio e concentração. Escutava a arritmia de seus corações muito mais alto, agora, que se detivera e os encarava. O cheiro do suor que gotejava de seus corpos. Medo. Sabia exatamente quem fôra. O homem se encolheu.

Eram humanos, não podia... Vestiu a corrente lentamente sobre a cabeça e aceitou. Entrou.

Sua 'tropa de apoio' aguardou entre as paredes maciças até que a passagem se lacrasse uma vez mais e as enormes lingüetas de aço estalassem sinalizando que haviam cumprido sua missão. A câmera de vigilância enquadrou os rostos aliviados, depois arrogantes dos soldados. Eles já voltavam, sem incidentes a reportar.

Um deles não será mais escalado...

[The Slave with a Key - parte 2]